O naufrágio do Roumania

No dia 27 ou 28 de Outubro de 1892 o navio inglês Roumania naufragou a poucos kms a norte da barra a Lagoa de Óbidos devido a um grande temporal acompanhado de nevoeiro. Possivelmente o naufrágio deu-se de noite dado que alguns corpos apareceram nas praias em camisa de dormir. Apesar da proximidade da terra, a cerca de 200 metros, a violência das ondas e a força das correntes marítimas foram tais a ponto de passageiros morreram de exaustão. Naufragaram cerca de duas centenas de pessoas. A carga do navio era essencialmente constituída por chitas e fazendas, além de máquinas de costura. Transportava também material ferroviário destinado à construção de uma ferrovia na Índia, na época colónia inglesa. Várias pessoas da região recuperaram parte da mercadoria do navio que deu à costa, principalmente tecidos de chita. Em 1963 foi feito um levantamento da carga do navio e alguns trabalhos de desmantelamento e recuperação pela firma António M. Parreira Cruz e Herdeiros Lda.

O S. S. ROUMANIA veleiro inglês construído em 1889 que naufragou junto à barra da Lagoa de Óbidos a 28 de Outubro de 1892. Imagem retirada em 21/08/06 de: http://caminheirosdascaldas.com.sapo.pt/2006/01/57-passeio-naufrgio-ss-romania.htm

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Em Portugal, a imprensa da época noticiou bastante o naufrágio: Correio da Noite; Novidades; Século; Caldense; Diário de Notícias, Distrito de Leiria. A imprensa inglesa também relatou a tragédia: The Times; The Liverpool Daily Post, entre outros. Entre os passageiros, na maioria escoceses, viajavam missionários, militares, funcionários do administração colonial e respectivos familiares, além dos indianos de quem pouco se fala.

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Uma das seis sepulturas dos náufragos ingleses no cemitério da Serra do Bouro (Caldas da Rainha). Foto do autor.

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Os corpos que deram à costa foram sepultados nos cemitérios da região (Serra do Bouro, Famalicão, Vau e Peniche). Na zona reservada aos túmulos dos náufragos, conhecida como "Cemitério dos Ingleses", situada no topo oeste do cemitério da freguesia da Serra do Bouro, estão sepultadas seis pessoas: duas crianças, uma de um ano e outra de dois anos e meio, e quatro senhoras. Todos estas são campas rasas à excepção da esposa do Revendo William Burgess, senhora Lillie Hay que tem uma campa diferente com uma lápide à cabeceira e com a data de 27 de Outubro de 1892. Há outros corpos resultantes do naufrágio aqui enterrados mas que não têm lápide. Até há poucos anos atrás o cemitério dos ingleses estava separado do cemitério dos católicos, devido aos facto de serem protestantes. Uma lápide comemorativa do centenário deste acontecimento da autoria da Junta de Freguesia da Serra do Bouro reza o seguinte: «Em 28 de Outubro de 1892, nesta costa naufragou o navio de nacionalidade inglesa S.S. Roumania. Alguns dos seus náufragos repousam sob estas lápides. Evocação do 1º centenário com a presença das autoridades locais e de entidades consulares britânicas. 12 de Dezembro de 1992».

Entrada do cemitério da Serra do Bouro (Caldas da Rainha), entrevendo-se a área reservada aos túmulos dos náufragos do Roumania. Foto do autor.

A Biblioteca Universal

Na obra Lisboa no ano três mil, editada em 1892, Cândido de Figueiredo imaginou o mundo no ano 3000. Nesse futuro longínquo de 11 séculos, a Austrália seria uma das super-potências mundiais, dominando o continente africano e americano, juntamente com o império russo, senhor de toda a Europa e Àsia. Porém, era na Austrália onde se situava o progresso económico, social, político e cultural. Viajando através de uma hipnose fictícia, Cândido de Figueiredo "observou" algo que lhe impressionou o espírito:
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«O que mais vivamente me atraiu a vista e a atenção foi um imenso farol eléctrico, tão alto, e tão mosntruosamente grande, que do centro da Austrália iluminava todas as costas do continente! Falta só dizer que esse farol era apenas o zimbório do mais majestoso e extraordinário edifício de toda a Austrália - a Biblioteca Universal.
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Exteriormente, a Biblioteca era um imenso palácio de coral, de forma quadrangular, com dois quilómetros de diâmetro, e cem portas, rasgadas em toda a altura do edifício e constantemente abertas. Os intervalos das portas compreendiam interiormente a biblioteca propriamente dita. Mas os livros propriamente ditos, não os havia: eram enormes rolos de papel, dispostos e empilhados, como nos nossos estabelecimentos de papel para forrar casas.
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Cada um destes rolos tinha um número de ordem, correspondente ao número que cada obra tinha no catálogo. Catálogo é uma maneira de dizer. Lá não havia catálogos como os nossos: em cada repartimento, isto é, em cada intervalo das portas, estendia-se, em toda a altura, um grande listão de metal branco, exibindo, em grandes letras douradas, os números e os títulos das obras contidas no respectivo repartimento.
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Não obstante a aparente justaposição dos rolos, qualquer deles podia sair dos seus lugares, sem se alterar a posição dos demais. O visitante, ou o estudioso, consultava o listão-catálogo, e, tocando no botão de um aparelho eléctrico, fazia descer a obra que procurava: o rolo pousava numa grande mesa, onde se desenrolava, depressa ou devagar, segundo a pressão que o leitor exercesse no botão do aparelho. O aparelho estava em comunicação com uma lâmina metálica, à volta da qual se enrolava a obra, e com outra lâmina que correspondia à margem oposta.
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Como é natural, entre as duas margens mediava maior ou menor extensão, segundo as dimensões da obra. Havia obra que daria um quilómetro: mas, ao ler-se, a lâmina exterior ia dobrando sobre si a parte lida; e, quando se chegava ao fim da primeira página, a lâmina interior, que então se descobria, realizava a operação da outra lâmina, para que se lesse a segunda e última página.
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Nem escadas, nem contínuos, nem cadeiras. Lia-se, escrevia-se de pé, a toda a altura do peito, porque a ciência e a higiene assim o prescreviam.
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Em vez do contínuo, e junto de cada repartimento, permanecia um sábio, que tinha o encargo de explicar, durante duas horas em cada dia, as doutrinas científicas, artísticas ou literárias, contidas nas obras que lhe estavam ao lado.
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Os sábios da biblioteca constituíam o corpo universitário; e, pelas naves do edifício, agrupavam-se os mais engenhosos maquinismos, maravilhas práticas da indústria, das ciências e das artes, poderosos auxiliares do ensino universitário. [...].
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Todas as obras da biblioteca, originais umas e traduzidas outras, estavam escritas no idioma universal, o volapuque, que todos podiam ler e entender. Procurei o listão-catálogo, que tinha por título geral Viagens, e tive tentações de ler o n.º 98.765, porque eram as DIGRESSÕES NO EXTREMO OCIDENTE, pelo sábio Terramarique.»
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Bibliografia:
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FIGUEIREDO, Cândido de (2003, 2.ª ed) - Lisboa no ano três mil, Lisboa: Frenesi, pp. 12 -14