Parece ser mais uma boa produção do cinema brasileiro! "Corações Sujos" retrata o modo como a comunidade japonesa radicada no Brasil reage à derrota do Japão na 2.ª Guerra Mundial. Em 1945/1946 constituía a maior comunidade nipónica fora do Japão e nela muitos não aceitaram a humilhação e a desonra da derrota. «Alguns deles se organizaram para assassinar os "corações sujos", como chamavam aos compatriotas que aceitaram a derrota. No seio desta comunidade, castigada pela intolerância e pelo racismo,
surgiram grupos organizados que se negaram a aceitar a derrota do Japão
na guerra, e acabaram empreendendo uma cruzada contra os compatriotas
que assumiram a derrota, considerando-os traidores. Em nome da verdade e da honra japonesa, estes grupos manipularam
informação, ameaçaram seus próprios vizinhos e mataram muitos deles;
tudo para negar o que era um segredo: que o imperador Hiroito era mortal
e tinha perdido a guerra, embora fosse a primeira derrota de sua vida.» Além das convulsões vividas no seu interior, a comunidade nipónica sofreu represálias políticas do governo que ilegalizou a língua e a bandeira japonesa no território brasileiro. O filme, estreado mundialmente no passado dia 21 de agosto em Montreal (Canadá) no Festival de Filmes do Mundo, foi realizado por Vicente Amorim.
Notas de História e estórias de Portugal = Notes about History and stories from Portugal
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A tentativa de reintegração do Brasil (1823-1824)
Na sequência do golpe de estado Vila francada, levado a cabo pelo infante D. Miguel nos dias 27 de maio a 3 de junho de 1823, foi nomeado um novo governo, conhecido como o governo dos inauferíveis direitos, na medida em que restituía ao rei D. João VI os direitos reais abolidos pela Constituição de 1822. Nesse governo estava o conde de Palmela na pasta dos Negócios Estrangeiros, que nas suas memórias descreve como sendo um dos objectivos primordiais do governo o regresso do Brasil ao domínio da monarquia portuguesa, objectivo. Só
pela via diplomática Portugal poderia obter alguma vantagem nesse
negócio, devido à situação económica e política débil e ao nítido
favorecimento inglês à independência brasileira, condicionalismos que dificultavam a via militar
como solução.
Descreve-nos o Duque de Palmela nas memórias: «A primeira tentativa, que naturalmente lembrou, foi a de solicitar a intervenção do Imperador da Áustria. Este, na qualidade de sogro do príncipe D. Pedro, interessado por isso na sua fortuna e bom nome, assim como pela sua condição de Soberano Legítimo, também devia influir na sustentação dos direitos da Coroa Portuguesa e parecia mais que ninguém indigitado para intervir nesta questão de um modo eficaz. O Gabinete austríaco, porém, contra a expectação de Portugal, recusou-se à intervenção solicitada, e conhecendo eu que esta recusa provinha do receio de ciúmes no Gabinete inglês, resolvi alterar o primeiro pedido e solicitar a mediação da Áustria conjuntamente com a Inglaterra, na esperança de neutralizar por este meio a parcialidade do Ministério inglês. Aceita esta proposta, entabulou-se em Londres uma negociação entre plenipotenciários portugueses e brasileiros debaixo da mediação do ministro britânico e do ministro austríaco. [...].
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| D. Pedro de Souza & Holstein, Duque de Palmella, (gravura de Richard James Lane, sl.: s.n., ca. 1850) |
A maior dificuldade consistiu na exigência que os brasileiros apresentaram como ponto preliminar, do reconhecimento da sua independência [...]. Esta concessão preliminar era porém a que o Governo Português não se achava com força moral para outorgar in limine; e a negociação, como já dissemos, complicou-se sobremaneira pelas questões da sucessão à Coroa de Portugal. Esta sucessão, tanto El-Rei D. João VI, como os seus ministros, desejavam assegurá-la ao sr. D. Pedro, mediante estipulações (bem difíceis de combinar) para salvar não só os interesses, mas ainda a dignidade da Nação Portuguesa, evitando que depois do falecimento de El-Rei, ela ficasse sujeita a um Governo estabelecido no Brasil.
Para este fim lembrou a residência alternada do Soberano ora num, ora noutro hemisfério, com a condição, também, da residência do herdeiro da Coroa como regente, e com independência administrativa, naquele dos dois reinos onde não residisse o soberano. Para apoiar estas diligências com algum aparato de força, e proteger os interesses dos portugueses existentes no Brasil, preparou-se um armamento considerável em Lisboa, com que se ameaçou enviar uma expedição, no caso de ficar frustrada a negociação em Londres. Os acontecimentos de 30 de Abril* vieram, porém, reagir fatalmente nesta questão, obrigando o Governo de El-Rei, abalado no seu centro, a perdê-la temporariamente de vista, fazendo com que se abandonassem os preparativos começados da expedição. O Ministério inglês, cansado das delongas da negociação, e ansioso de concluir um tratado de comércio com o Brasil, lançou mão por fim de um pretexto para retirar a sua mediação. Foi o pretexto haver D. João VI mandado, por concelho do conde de Subserra, um emissário secreto ao Brasil (Carlos Matias Pereira), sem ter dado conhecimento deste passo às potências mediadoras. [...]. Havendo então o ministro inglês nomeado como plenipotenciário (Sir Charles Stuart) para ir ao Brasil negociar o seu tratado de comércio com ordem de fazer escala por Lisboa, e de oferecer ali os seus bons ofícios para terminar a contenda com o Brasil, prestou-se o Governo de El-Rei D. João VI, de uma forma bem pouco apropriada aos interesses e decoro nacional, às insinuações da Inglaterra,** entregando-se, por assim dizer, à descrição do diplomata britânico, que foi nomeado também plenipotenciário português, concedendo-se destarte a um estrangeiro a faculdade de estipular a separação perpétua das duas partes da Monarquia Portuguesa, e o reconhecimento quase gratuito da independência da coroa do Brasil, que a tão caro preço se houvera podido vender.»
Das memórias do Duque de Palmela verifica-se que o governo português preferiu enveredar por uma diplomacia "musculada" ao invés de uma operação militar direta em território brasileiro, embora essa possibilidade não estivesse excluída de todo. Na tentativa de persuadir o governo brasileiro a um entendimento a diplomacia portuguesa recorreu à mediação anglo-austríaca, na suposição de que esta teria alguma influência sobre o Imperador D. Pedro I . Contudo, Portugal estava isolado nesta questão: os ingleses verdadeiramente não queriam a reintegração na esfera portuguesa, aos austríacos a questão não lhes dizia grande coisa e os brasileiros, obviamente, não queria perder o que entretanto ganharam: independência política.
A sucessão de D. João VI era para Portugal uma questão indissociável da reintegração do Brasil . O governo português pretendia que o Imperador D. Pedro fosse o herdeiro da coroa portuguesa porque ao herdá-la Portugal e Brasil voltariam a estar sob o mesmo ceptro numa lógica de monarquia dual e capital política rotativa.
Notas:
* Palmela refere-se à tentativa de golpe de estado chefiada pelo infante D. Miguel conhecida como Abrilada com o objectivo de afastar do governo todos os elementos liberais, restringir a ação política de D. João VI. e fazer da facção absolutista a dona do poder.
** Neste tempo Palmela já não era ministro dos negócios estrangeiros.
Bibliografia:
HOLSTEIN, D. Pedro de Sousa - Memórias do Duque de Palmela, trans., pref., e ed. Maria de Fátima Bonifácio. Alfragide: D. Quixote, 2010, p. 180, 181.
Os papéis do imperador viajante
Chegou-me pela minha amiga Ive Tavares, à qual agradeço, a notícia de que o arquivo pessoal do Imperador D. Pedro II do Brasil é candidato à classificação de Património Mundial da Humanidade. A notícia de tal projecto foi divulgada na versão on-line do jornal Globo, transcrita abaixo com algumas supressões.
«A visão do mundo por meio de relatos de um célebre viajante, Dom Pedro II, compõe um conjunto com 871 documentos da Casa Imperial do Brasil, que recebeu no início do mês o Registro Nacional do Comitê do Programa Memória do Mundo, concedido pela Unesco. A nomeação é o primeiro passo para que uma obra possa se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade. Para isso, pesquisadores trabalham no Museu Imperial, em Petrópolis, na análise de outros 50 mil documentos deixados pelo monarca, à procura de mais relatos referentes às suas jornadas.
— Para se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade, a obra deve ter um tema que seja relevante para diferentes partes do mundo. Dom Pedro viajou pelos quatro continentes, em dezenas de países. De cada lugar ele fez um relato minucioso. Por isso, esperamos ser contemplados em 2012 com o título — diz a historiadora Neibe Machado da Costa, responsável pelo arquivo da Casa Imperial do Brasil. [...]. Depois de concluída a leitura do restante dos documentos, a Casa Imperial do Brasil planeja lançar publicações digitais e convencionais e catálogos educativos. Também está prevista uma grande exposição para 2014. [...].
— Para se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade, a obra deve ter um tema que seja relevante para diferentes partes do mundo. Dom Pedro viajou pelos quatro continentes, em dezenas de países. De cada lugar ele fez um relato minucioso. Por isso, esperamos ser contemplados em 2012 com o título — diz a historiadora Neibe Machado da Costa, responsável pelo arquivo da Casa Imperial do Brasil. [...]. Depois de concluída a leitura do restante dos documentos, a Casa Imperial do Brasil planeja lançar publicações digitais e convencionais e catálogos educativos. Também está prevista uma grande exposição para 2014. [...].
Um dos muitos diários do Imperador D. Pedro II (1825-1891)
Por meio dos 871 documentos já analisados pelas pesquisadoras da Casa Imperial do Brasil, sabe-se que ele passou por países de culturas completamente distintas, como o Canadá, a Rússia, a Turquia, a Alemanha e a Itália.
— Temos documentos de pessoas que influenciaram Dom Pedro a conhecer determinado país. Ele tinha grandes amigos nos EUA, por exemplo. O que queremos é demonstrar as interligações pessoais e diplomáticas do imperador — explica a historiadora Neibe Machado da Costa, responsável pelo arquivo da casa.
Uma de suas viagens mais marcantes ocorreu em 1876, justamente para os EUA, para onde ele foi como convidado de honra para a Exposição Universal, na Filadélfia, Pensilvânia. Foi lá que o imperador conheceu o telefone e se encantou, trazendo-o para o Brasil, que foi o segundo país a ter a invenção. Como presente aos anfitriões, ele levou um hino feito pelo maestro Carlos Gomes especialmente para os americanos. Em outra correspondência, com Guilherme Capanema, o Barão de Capanema, o imperador pede que ele compre três casas em Viena, na Áustria, onde pretendia montar o Museu da Cultura Brasileira. O projeto acabou não se concretizando.
O Brasil não ficou de fora do roteiro de Dom Pedro II. Ele passou por diversas cidades do país e fez relatos detalhados de como era a vida nesses lugares. Um costume que tinha era o de, em cada município, visitar a Câmara, a cadeia e a escola. Em uma de suas viagens ao Espírito Santo, ele teve contato com os índios puris. Na ocasião, fez um pequeno glossário traduzindo termos do seu dialeto para o português. [...].
— Os documentos são referentes a 50 anos da vida do imperador. Ainda estamos começando, mas a expectativa é que até 2012 o trabalho esteja concluído para que possamos divulgar essas passagens da vida dessa personalidade da História brasileira — conclui a pesquisadora.[...]»
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