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A Biblioteca Nacional vista por Pessoa em 1925

Fernando Pessoa tinha quase preparado para publicação um guia turístico bilíngue (português e inglês) intitulado "O que o turista deve ver - What the tourist should see" escrito provavelmente em 1925. Contudo nunca chegou a ver a luz da edição durante a sua vida e só em 1992 foi publicado pela editora Livros Horizonte. Actualmente vai na 11ª edição (2011).

Nesse guia turístico, que Pessoa pretende que seja um guia para conhecer a maravilhosa cidade de Lisboa por meio do automóvel, estão indicado todos os monumentos, edifícios e paisagens que o autor achava meritórios de serem vistos e apreciados pelos turistas. Nele consta a Biblioteca Nacional de Lisboa, descrita da seguinte maneira pelo poeta:
«A Biblioteca Nacional está no segundo andar [no edifício do antigo convento de S. Francisco em Lisboa]. Foi fundada em 1796 com o nome de Real Biblioteca Pública da Corte, tendo sido criada com os livros que formavam a biblioteca da Mesa dos Censores, quer dizer, com os livros que tinham pertencido aos Jesuítas, e à Academia Real da História. A biblioteca tem sido sucessivamente enriquecida através de aquisições e donativos. Tem 11 salas e 14 galerias, em dois andares, e contém 360 000 volumes. À entrada estão a estátua da Rainha D. Maria I, de Machado de Castro, e os bustos de Castilho (de José Simões de Almeida) e de D. António da Costa. Os azulejos policromos do século XVI merecem ser vistos; pertenciam antigamente à capela da Senhora da Vida, na igreja de Santo André, que agora já não existe.
No andar de baixo são as salas de leitura para investigação privada e leitura geral, a sala de ficheiros e a sala de periódicos. No andar superior estão a tipografia, os serviços, o gabinete de estampas e a importantíssima sala dos Livros Reservados, que contém as mais raras obras, verdadeiras relíquias bibliográficas, algumas delas exemplares únicos, espécimes com encadernações e ilustrações raras, manuscritos, moedas, e muitos documentos escritos de todos os géneros, formando todo este conjunto uma colecção bibliográfica merecedora do maior cuidado possível. E quase se pode dizer que esta secção da Biblioteca, como de resto todas as outras, é agora objecto de adequado cuidado e vigilância. A Biblioteca distingue-se agora pela limpeza e pelas boas instalações, considerando especialmente que o edifício não é o mais apropriado para este fim. Recentemente, e especialmente desde que foi nomeado seu director o Dr. Jaime Cortesão, escritor e poeta consagrado, a Biblioteca tem tido um marcante e bem necessário progresso.
O visitante pode também ver a secção especial de Bíblias (que possui uma das duas cópias ainda existentes da primeira edição da Bíblia da Mogúncia ou de Gutenberg), os Arquivos da Marinha e do Ultramar, que incluem mapas e cartas, o gabinete de catalogação, a Biblioteca do Convento do Varatojo, que conserva a sua disposição original, incluindo o oratório, a Sala Fialho de Almeida com o busto deste escritor (de Costa Mota Sobrinho), etc.
Há um vasto terraço no topo do edifício, com uma belíssima vista. A Biblioteca está aberta todos os dias úteis das 11 da manhã às 5 da tarde, e das 7.30 às 10 da noite.»

 
Livraria proveniente do mosteiro de Alcobaça na sala de reservados da Biblioteca Nacional quando esta ainda se situava no edifício do antigo convento de S. Francisco. Imagem retirada de http://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/biografias/jcornu.htmlhttp://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/biografias/jcornu.html (acedido a 18/11/2011)


As bibliotecas do convento de S. Domingos em Lisboa

O convento de S. Domingos em Lisboa possuía duas bibliotecas. Uma delas era pública, de acesso franco a pessoas de fora do convento. Essa biblioteca tinha um fundo bibliográfico composto por 10 000 volumes, bem encadernados e classificados por àreas do conhecimento. O quadro de pessoal era constituído por duas pessoas: o bibliotecário-mor, (religioso dominicano e provavelmente o gestor da biblioteca) e um leigo que tinha por função receber, atender e orientar os leitores. Não deixa de ser interessante este facto, pois não há notícias de bibliotecas conventuais abertas ao público em Portugal durante a primeira metade do século XVIII.
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A outra biblioteca situava-se na Casa da Livraria, uma divisão contígua ao espaço onde estava a biblioteca pública. Era mais pequena em número de volumes, pois tinha cerca de 5 000, se bem que eram mais raros e valiosos. Continha também uma colecão de manuscritos. Esta segunda biblioteca era reservada aos frades dominicanos. Todo este património se perdeu com o fatal incêncio deflagrado na sequência do terramoto de 1 de Novembro de 1755.
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Bibliografia:
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RIBEIRO, José Silvestre - Historia dos estabilicimentos scientificos litterarios e artisticos de Portugal nos successsivos reinados da monarchia, vol. 19 (Apontamentos históricos sobre bibliotecas portuguesas / org. e antiloquiado por Álvaro Neves, 1914, p. 92).
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Acessível na Biblioteca Nacional Digital em: http://purl.pt/173/3/

A Biblioteca Universal

Na obra Lisboa no ano três mil, editada em 1892, Cândido de Figueiredo imaginou o mundo no ano 3000. Nesse futuro longínquo de 11 séculos, a Austrália seria uma das super-potências mundiais, dominando o continente africano e americano, juntamente com o império russo, senhor de toda a Europa e Àsia. Porém, era na Austrália onde se situava o progresso económico, social, político e cultural. Viajando através de uma hipnose fictícia, Cândido de Figueiredo "observou" algo que lhe impressionou o espírito:
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«O que mais vivamente me atraiu a vista e a atenção foi um imenso farol eléctrico, tão alto, e tão mosntruosamente grande, que do centro da Austrália iluminava todas as costas do continente! Falta só dizer que esse farol era apenas o zimbório do mais majestoso e extraordinário edifício de toda a Austrália - a Biblioteca Universal.
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Exteriormente, a Biblioteca era um imenso palácio de coral, de forma quadrangular, com dois quilómetros de diâmetro, e cem portas, rasgadas em toda a altura do edifício e constantemente abertas. Os intervalos das portas compreendiam interiormente a biblioteca propriamente dita. Mas os livros propriamente ditos, não os havia: eram enormes rolos de papel, dispostos e empilhados, como nos nossos estabelecimentos de papel para forrar casas.
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Cada um destes rolos tinha um número de ordem, correspondente ao número que cada obra tinha no catálogo. Catálogo é uma maneira de dizer. Lá não havia catálogos como os nossos: em cada repartimento, isto é, em cada intervalo das portas, estendia-se, em toda a altura, um grande listão de metal branco, exibindo, em grandes letras douradas, os números e os títulos das obras contidas no respectivo repartimento.
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Não obstante a aparente justaposição dos rolos, qualquer deles podia sair dos seus lugares, sem se alterar a posição dos demais. O visitante, ou o estudioso, consultava o listão-catálogo, e, tocando no botão de um aparelho eléctrico, fazia descer a obra que procurava: o rolo pousava numa grande mesa, onde se desenrolava, depressa ou devagar, segundo a pressão que o leitor exercesse no botão do aparelho. O aparelho estava em comunicação com uma lâmina metálica, à volta da qual se enrolava a obra, e com outra lâmina que correspondia à margem oposta.
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Como é natural, entre as duas margens mediava maior ou menor extensão, segundo as dimensões da obra. Havia obra que daria um quilómetro: mas, ao ler-se, a lâmina exterior ia dobrando sobre si a parte lida; e, quando se chegava ao fim da primeira página, a lâmina interior, que então se descobria, realizava a operação da outra lâmina, para que se lesse a segunda e última página.
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Nem escadas, nem contínuos, nem cadeiras. Lia-se, escrevia-se de pé, a toda a altura do peito, porque a ciência e a higiene assim o prescreviam.
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Em vez do contínuo, e junto de cada repartimento, permanecia um sábio, que tinha o encargo de explicar, durante duas horas em cada dia, as doutrinas científicas, artísticas ou literárias, contidas nas obras que lhe estavam ao lado.
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Os sábios da biblioteca constituíam o corpo universitário; e, pelas naves do edifício, agrupavam-se os mais engenhosos maquinismos, maravilhas práticas da indústria, das ciências e das artes, poderosos auxiliares do ensino universitário. [...].
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Todas as obras da biblioteca, originais umas e traduzidas outras, estavam escritas no idioma universal, o volapuque, que todos podiam ler e entender. Procurei o listão-catálogo, que tinha por título geral Viagens, e tive tentações de ler o n.º 98.765, porque eram as DIGRESSÕES NO EXTREMO OCIDENTE, pelo sábio Terramarique.»
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Bibliografia:
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FIGUEIREDO, Cândido de (2003, 2.ª ed) - Lisboa no ano três mil, Lisboa: Frenesi, pp. 12 -14

O bibliotecário e a hierarquia da leitura

Tal como hoje, na 1.ª metade do século XX as bibliotecas classificavam-se conforme os acervos bibliográficos e os públicos leitores. Segundo a doutrina biblioteconómica da época, existiam entre as várias classes de bibliotecas, as eruditas e as populares, nomenclatura actualmente absoleta. Mundos distintos! As bibliotecas eruditas incorporavam vastas colecções documentais, desde o livro antigo ao contemporâneo, tentando abranger todas as áreas do conhecimento universal. Como a designação da classe indica, estavam vocacionadas para um público erudito, culto, investigador, produtor de ciência e cultura. Por outro lado, as bibliotecas populares, mais modestas na oferta bibliográfica, dirigiam-se ao grande público, que nesse tempo ainda não possuia os recursos financeiros suficientes à compra de livros de acordo com o seu gosto de leitura. Prestavam assim um importante serviço social de apoio à leitura pública, enquanto que as bibliotecas eruditas desenvolviam mais uma função cultural devido ao tipo de património bibliográfico em posse. As bibliotecas populares eram na maioria tuteladas pelos municípios. As eruditas eram algumas com uma longa história, como a biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa, a Biblioteca Nacional, a Biblioteca da Universidade de Coimbra, ou a Biblioteca Municipal do Porto. De acordo com as orientações biblioteconómicas, as bibliotecas populares teriam a missão entreter o povo através da leitura e transmitir-lhe conhecimentos úteis, de cultura e formação geral. Obras de ficção e de carácter técnico eram as mais usuais nas estantes das bibliotecas deste tipo. Livros de leitura fácil, de recreio ou de instrução, nada de conteúdos políticos ou filosóficos, ou de matérias de muito labor intelectual.
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Sala de leitura pública da Biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa. Note-se a presença de duas leitores femininas, possívelmente de leitura "popular", visto nesta época estarem as mulheres afastadas do ensino superior e da investigação. Foto de Joshua Benoliel. (fonte: Ilustração Portugueza, n.º 177 (12-6-1909).

Na 1.ª metade do século XX, ao contrário da actual rede de bibliotecas públicas que desde 1988 tem vindo a cobrir o território nacional, a quantidade de bibliotecas populares era diminuta para satisfazer a vontade de leitura da classe média portuguesa, mesmo nos meios urbanos. Perante esta situação de insuficiência, muitos leitores frequentavam algumas bibliotecas eruditas, transformando-as acidentalmente num espaço misto de leituras. "Eruditos" e "populares" partilhavam as mesmas salas de leitura. Qual era o pensamento dos bibliotecários sobre esta promiscuidade de leituras?

O Director da Biblioteca Municipal do Porto (apesar de municipal era considerada uma biblioteca erudita), Dr. Joaquim Costa, no manual de biblioteconomia escrito em 1943, a convite da editora Livraria Tavares Martins para integrar a linha editorial intitulada «Colecção para o povo e para as escolas» opina sobre a mistura de públicos e leituras.

«[...] Há Bibliotecas eruditas e de altos estudos onde se faz ainda, por transigência, que não deverá indefinitivamente manter-se, a leitura popular, amena ou recreativa.

Tal leitura é quási sempre prejudicial aos estudos sérios, que, a cada passo, perturba. Terá esta, portanto , de ser relegada às Bibliotecas populares, que não devem ficar longe delas.

A separação de tais leituras é útil, porque gradua a categoria especial da frequência e selecciona o pessoal que lhe assiste, dando maiores garantias e facilidades aos investigadores e estudiosos, que poderão deste modo, trabalhar mais à vontade e com muito maior proveito. [...].

Desenvolva-se a cultura popular, quanto seja possível; desenvolva-se e intensifique-se, mas não com grave prejuízo dos mais nobres trabalhadores do espírito. [...].

Prejudica-se sempre a cultura séria quando, cumulativamente e em grande número, se põe, ao lado dos melhores investigadores, cientistas ou eruditos consumados, leitores superficiais de obras insignificantes, sobretudo quando estes se mostrem irrequietos ou mal educados.

Preferir-se-á sempre a qualidade à quantidade, embora sem a inutilização desta. O trabalho do espírito exigirá, de-certo, algumas transigências. [...] (COSTA, 1943, pp. 36 - 38).»

O comentário do Dr. Joaquim Costa revela a mentalidade dos bibliotecários da época quanto à promiscuidade e eventuais conflitos de públicos. As leitura devia de estar hierarquizada em função do leitor, classificado em erudito ou popular, ou em função da finalidade, se de investigação/estudo ou de entretendimento. A cada leitura corresponderia um espaço próprio, estruturando-se assim uma selectividade de leitores. Mesmo em virtude da necessidade, provocada pela escassez de bibliotecas populares, a leitura de lazer e a leitura académica ou de investigação não se podiam cruzar, sob pena da primeira prejudicar a última. Neste contexto, o bibliotecário assume o papel de juíz das leituras. Avalia-as, hierarquiza-as e separa-as.

Bibliografia:
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COSTA, Joaquim (1943) - Biblioteconomia. Livraria Tavares Martins, Porto

Antes dos marcadores de livros

Actualmente o marcador de livros é um acessório frequente nas nossas leituras. Quase sempre feito em cartolina, decorado, publicitário ou não, de formato rectangular, em média com 20 x 5 cm, tem a finalidade de sinalizar a página do livro onde a leitura ficou interrompida. Não sei quando surgiram os marcadores de livros propositadamente concebidos para este efeito, mas já há bastante tempo que os leitores recorrem a pedaços de papel improvisados, sem forma específica, muitas vezes documentos fora de uso, para marcarem as páginas dos seus livros. Numa biblioteca antiga, como a biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, do Palácio Nacional da Ajuda, da Universidade de Coimbra, da Academia das Ciências de Lisboa, ou outra, podem-se encontrar "marcadores de livros" de outros tempos, esquecidos no interior dos livros, possivelmente a marcar ainda a página onde ficou uma leitura interminada. E aparece um pouco de tudo, qualquer papelinho servia para localizar a leitura, desde pedaços de manuscritos, cartões publicitários, endereços, rascunhos, bilhetes, recibos, etc... Apresento aqui alguns desses papelinhos, espécie de marcadores de livros do antigamente, encontrados numa biblioteca do século XVIII.
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Cartão de uma loja comercial. Século XIX. (10. 5 x 6 cm)
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Orações impressas em latim. Final do século XVIII, inicio do século XIX. (15 x 10.5 cm)
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Bilhete de lotaria cortado. Séc. XIX. (10.5 x 4.5 cm)
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Recibo de uma Contribuição Predial de 1855. (20.5 x 11 cm, frente)
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Recibo de uma Contribuição Predial de 1855. (20.5 x 11cm, verso)

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Cartão ilustrado. Século XIX. (15 x 11 cm)

Biblioteca de Jardim

A revista Ilustração Portugueza, no n.º 718 (24 de Nov. de 1919), noticiava a inauguração de uma pequena biblioteca pública no Parque del Retiro em Madrid. Esta biblioteca não era mais do que uma grande estante de livros em pleno jardim para usufruto dos transeuntes. Além de divulgar a notícia, a revista, no artigo entitulado Como o povo aprende a amar a sua terra e os seus escritores, fez a apologia da abertura de bibliotecas idênticas nos maiores jardins públicos de Lisboa, tal como acontecera em Madrid, afirmando que «A Camara Municipal faria, pois tres estantes destinadas aos nossos tres jardins fechados: o de S. Pedro de Alcantara, o da Escola Politécnica e o da Estrela.» [p. 405] acrescentando que «Esta ideia é além disso tudo quanto ha de mais realisavel. Tem a Camara operarios que, em logar de madraçarem, se podem ir entretendo a construir as pequenas estantes. [...] Uma estante com duzentos volumes satizfaz plenamente a gula ledora do publico alfacinha, ao mesmo tempo que dá a impressão de que isto é terra civilisada.» [p. 408].
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A biblioteca do Parque del Retiro em Madrid, inaugurada em 1919, e que inspirou a revista Ilustração Portugueza a sugerir uma do mesmo tipo nos jardins de S. Pedro de Alcantara, da Escola Politécnica (Jardim Botânico) e da Estrela. fonte: Illustração Portugueza, n.º 718 (24 Nov. 1919), p. 405
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Que fundo documental comporia este tipo de bibliotecas? Seriam bibliotecas de cariz popular, com a finalidade de disponibilizar, sobretudo aos mais carenciados económicamente, os grandes vultos da literatura portuguesa. Assim, e na opinião da Ilustração Portugueza, deviam estar nestas bibliotecas, autores exclusivamente portugueses, deixando de fora autores estrangeiros, mesmo que traduzidos. Eram os tempos do nacionalismo literário. Segundo a revista «Nada de livros prenhes de idéas, nada de livros complicados. Nada de livros pretensiosamente educadores, nada de politicas.» [pág. 406]. Sugeria antes «livros maravilhosos de comoção e portuguezissimos? Pois não temos os Fidalgos da Casa Mourisca, a A Morgadinha dos Canaviaes, as Pupilas do sr. Reitor e Uma familia Ingleza, só de um autor? Não temos esses encorajantes livros de Mota Prego, a Horta do Tomé, a Lagoa do Donim, a Leitaria da Rosalina, os Netos do Nicolau, o Padre Roque, o Pomar do Adrião e a Quinta do Diabo? Ora não serão esses livros proprios para creanças e adultos e não se fica sabendo, depois de os ler, alguma coisa de piscicultura, apicultura, pomocultura etc.? Então não temos esse bronzeo Herculano falando-nos dos tempos idos, com a grandeza épica de um estilo que parece cinzelado na pedra imortal dos monumentos e no oiro mates das obras de Arte? As Lendas e narrativas, e O Bobo não são que baste uma alma de nobreza e de respeitopor esses mesmos livros e pela sua terra? Fialho d'Almeida daria os seus Contos e A Cidade do Vicio, D. Virginia de Castro e Almeida os seus romançes Terra bendita, Trabalho bendito e Capital bendito, Beldemonio A Musa Toira, Camilo os seus melhores livros. Que com Camilo a dificuldade seria da escolha, mas ha uma edição popular com sus estante e tudo e só aí são 80 volumes. Garrett teria lá as Viagens da minha terra e o Frei Luiz. Castilho um ou dois volumes. Um ou dois volumes d'esse faceto erudito que foi Manuel Bernardes Branco, os cinco volumes da Nova Floresta para os meditativos, os Sonetos de Amor de Camões para os amorosos, além, é claro, dos Lusiadas. Os Contos do D. João da Camara, duas ou tres peças do Marcelino, o Livro de Cezario Verde, estrofes tonitroantres de Junqueiro, entusiasmos artisticos de Gomes Leal.
Santo Deus! Que coisa bonita que isto das bibliotecas dos jardins poderia ser!» [p. 406, 407].
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Modelo da biblioteca dos jardins de Lisboa proposto pela Illustração Portugueza, muito semelhante ao modelo das bibliotecas de jardim de Madrid. fonte: Ilustração Portugueza, n.º 718 (24 Nov. 1919), p. 407
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Os livros seriam carimbados, e a segurança da biblioteca ficaria à responsabilidade dos próprios leitores, não deixando a revista de aventar a possibilidade de quer ladrões, quer alfarrabistas receptores dos livros carimbados estarem sujeitos a uma pena de 15 dias de prisão [p. 405]. Esta ideia de biblioteca de jardim, tanto quanto sei, nunca chegou a ser implementada em Lisboa, nem noutra cidade portuguesa. No entanto, a Câmara Municipal de Lisboa têm actualmente a Biblioteca Quiosque do Jardim da Estrela, acessível de Segunda Feira a Sábado durante o dia, com mais de 1000 monografias e bastantes publicações periódicas, que se aproxima muito deste conceito de biblioteca de jardim propagandeado pela Ilustração Portugueza.
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Bibliografia:
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Como o povo aprende a amar a sua terra e os seus escritores in Ilustração Portugueza, S. II, n.º 718 (24 Nov. 1919)

Leitura pública em Lisboa nos finais do século XVIII

A primeira biblioteca de natureza estritamente pública em Portugal só surgiu em 1796, quando a Rainha D. Maria I funda a Real Biblioteca Pública da Corte (RBPC), antecessora da actual Biblioteca Nacional de Portugal. Distinta das restantes bibliotecas portuguesas, a RBPC vocacionava-se para o público geral, isto é, para as elites culturais da época. O restante universo das bibliotecas portuguesas constituía-se sobretudo por bibliotecas afectas a públicos restritos, predominando as bibliotecas conventuais que visavam o apoio educacional das comunidades religiosas, e as bibliotecas particulares, sendo que algumas abriam as suas portas a públicos mais ou menos alargados conforme a dimensão da rede de solidariedades sociais do seu proprietário. Era inexistente uma rede de leitura pública tal como se entende nos dias de hoje.
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No entanto, analisando o último quartel de setecentos, é possível determinar em Lisboa uma geografia da leitura pública, ou semi-pública, ou senão, de acesso público. Aparentemente, foi no contexto eclesiástico que as bibliotecas iniciaram um lento processo de abertura ao público. As comunidades monástico - conventuais começam gradualmente a facultar o acesso das suas bibliotecas a leitores leigos que procuram obras difíceis de adquirir no mercado livreiro, quer pela raridade, quer pelo preço. As referências documentais ao usufruto das bibliotecas conventuais por parte de leitores leigos aumentam na 2ª metade de setecentos. Por exemplo, logo depois do terramoto de 1755, o investigador Joaquim José Moreira de Mendonça frequentou a biblioteca do Convento da Graça no âmbito do seu trabalho científico sobre as causas dos terramotos (MENDONÇA, 1758, p. 130, 131).
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Em 1789 o Plano e Regulamento dos Estudos para a Congregação de S. Bento de Portugal permite às bibliotecas dos colégios beneditinos a abertura parcial ao público: «47 As Livrarias dos Collegios de Coimbra e da Estrella se farão ás Pessoas Literatas em todas as tardes dos Domingos, dias Santos e feriados, desde o I.º de Outubro até o fim de Julho. E para assistir aos hospedes e apromptar-lhes os livros que pedirem, na falta do Bibliothecario, haverá nos ditos Collegios dous Vice-Bibliothecarios, nomeados pelo Director, os quaes revezarão entre si aos mezes esta assistencia.» (Plano […], 1789, p. 141)

Biblioteca do antigo Convento N. S. Jesus, actualmente o Salão Nobre da Academia das Ciências de Lisboa.

(Fonte: Academia das Ciências de Lisboa. ACL: Lisboa, 1999, p. 14)

Depois, em 1792, por iniciativa do douto Fr. José Mayne, passou a leccionar-se no Convento de N. S. de Jesus de Lisboa uma aula pública de História Natural com o fim de combater as ideias “Atheístas, e Polyteistas” emanadas do jacobinismo iluminista comprovando-se a “Existência de Deos, a sua Sabedoria, Providencia, Bondade, e mais Atributos” pelo estudo da “Sciencia da Historia Natural”. Provavelmente a biblioteca do Convento de N. S. de Jesus estaria à disposição do público estudantil, senão mesmo de outros leitores (BRIGOLA, 2003, p. 421).

Outro ponto de leitura acessível ao público, pelo menos em 1798, era biblioteca do Mosteiro de S. Vicente de Fora, uma das principais bibliotecas de Lisboa. O botânico alemão Heinrich F. Link, de visita a Portugal, expressou-me relativamente ao acesso a esta biblioteca do seguinte modo: «Uma terceira biblioteca [as outras bibliotecas eram a RBPC e a biblioteca do Convento N. S.ª de Jesus], no convento de S. Vicente de Fora, não é com efeito pública, mas para a poder frequentar regularmente basta ser apresentado.» (LINK, 2005, p. 139). Segundo as memórias de José Liberato Freire de Carvalho, monge do mosteiro em 1807, muita «gente de certa ilustração” frequentava a biblioteca, regularmente fornecida de livros vindos do estrangeiro pelo livreiro Rey.» (FREIRE, 1982, p. 23).

Embora pouco numerosas, estas referências dão uma leve impressão de que a leitura pública começa a despontar lentamente em Portugal no século XVIII e dentro do círculo das bibliotecas eclesiásticas. Os antigos fundos bibliográficos dos conventos e mosteiros ficam à disposição de investigadores e curiosos leigos. Tendo a cidade de Lisboa dezenas de grandes institutos religiosos, equipados com recheadas bibliotecas, surge na capital uma geografia da leitura pública ou semi-pública ainda antes do aparecimento da primeira biblioteca essencialmente pública em 1796.

Bibliografia:

BRIGOLA, João Carlos Pires - Colecções, Gabinetes e Museus em Portugal no século XVIII. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003

CARVALHO, José Liberato Freire de - Memórias de José Liberato Freire de Carvalho, 2.ª ed., introd. João Carlos Alvim. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982

LINK, Heinrich Friedrich - Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha, trad., introd., e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005

MENDONÇA, Joachim Joseph Moreira de – Historia Universal dos Terremotos, que tem havido no Mundo, de que ha noticia, desde a sua creaçaõ até o seculo presente. Com huma narraçam individual do Terremoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, América, aonde se estendeu: e huma dissertaçaõ phisica sobre as causas geraes dos Terremotos, seus effeitos, differenças, e Prognosticos; e as particulares do ultimo. Lisboa: na Offic. de Antonio Vicente da Silva, 1758

Plano e Regulamentos dos Estudos para a Congregação de S. Bento de Portugal: Primeira parte. Lisboa: na Regia Officina Typografica, 1789

A incorporação das bibliotecas e arquivos religiosos de Torres Vedras durante a Monarquia Constitucional e República (1837 / 1913)

Vitorioso da guerra civil, o regime liberal pretendeu com o decreto de 28 de Maio de 1834 abolir um dos pilares sociais do Antigo Regime, extinguindo as ordens religiosas e nacionalizando os seus bens imóveis. Constituído sobretudo por propriedades e edifícios conventuais, o património imóvel da Igreja seria vendido em hasta pública com o duplo objectivo de colmatar a crise financeira do Estado e possibilitar o acesso à terra pela classe social vencedora, a burguesia. No meio de todo o processo restava o património móvel das corporações religiosas, nomeadamente a arte sacra, cartórios e sobretudo as bibliotecas, ou como se designava na época, livrarias.
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Relativamente a este, o regime decidiu incorporá-lo no património cultural do Estado e depositá-lo em Lisboa para a partir daí instituir uma rede de bibliotecas públicas na capital. Nesse âmbito criou-se o Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos (DLEC), entidade responsável pela arrecadação dos bens artísticos, bibliográficos e arquivísticos das comunidades conventuais espalhadas pelo país. Atribuísse-lhe também a função de distribuição do fundo documental recolhido para as novas bibliotecas que o Estado ia criando (BARATA, 2003, p. 31, 32).
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No concelho de Torres Vedras existiam 4 conventos: o convento da Graça, em Torres Vedras, o convento de Penafirme, ambos pertencentes à Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, o convento do Barro pertencente à Província de Santa Maria da Arrábida da ordem franciscana e o convento do Varatojo dos Missionários Apostólicos. Em conjunto reuniam um património de 9322 livros, 83 maços de manuscritos e 29 quadros de pinturas (Ibid., p. 100).
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A incorporação das bibliotecas conventuais do concelho de Torres Vedras foi, segundo a norma processual, sui generis. Estando previsto que as autoridades regionais em coordenação com as autoridades locais seriam as responsáveis pela guarda, arrecadação e envio para Lisboa dos bens móveis das comunidades religiosas extintas, o DLEC teve neste caso de intervir directamente no processo, ao ter conhecimento que a livraria do extinto convento de Penafirme se encontrava sujeita ao roubo, devido à sua localização e ao facto da porta da livraria estar arrombada (Ibid., p. 98), isto com o conhecimento das autoridades camarárias. Perante tal situação de negligência o DLEC vê-se obrigado a enviar em Junho de 1837 o funcionário João José Maria, a fim de proceder à recolha das bibliotecas do concelho.
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E no Varatojo registou-se outro facto atípico no processo de incorporação das bibliotecas conventuais portuguesas. A população de Torres Vedras, organizada pelas juntas de paróquias da vila, apresenta ao Ministério do Reino uma representação no sentido mostrar a utilidade pública em se conservar no convento do Varatojo as pinturas e os paramentos religiosos. Declaram que para esse fim a Capela da Nossa Senhora do Sobreiro, situada no mesmo convento, encontrava-se ocupada pela Junta de Paróquia de S. Pedro, e levantam até a hipótese de se criar uma biblioteca pública com os livros da biblioteca conventual (Ibid., p. 100). Ao mesmo tempo as juntas de paroquia pedem ao executivo camarário para que este faça chegar a mesma representação ao poder central (AMTV - Livro de Acórdãos n.º 27, Vereação de 28 de Jun. de 1834, fol. 131, 131 v.) A recolha dos livros chegou mesmo a estar suspensa com receio de perturbações da ordem pública, visto ser grande e inesperada a resistência da população local em conservar na sua posse o património que considerava seu. Após algum impasse administrativo, a acção de recolha continua, terminando a 2 de Outubro de 1837 (Ibid., p. 101).
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Estante da biblioteca conventual do Varatojo antes da sua incorporação na Biblioteca Nacional. (fonte: VALDEZ, 1914, p. 46 a )

Tendo os proprietários particulares cedido os conventos do Varatojo e do Barro à Ordem de S. Francisco e à Companhia de Jesus respectivamente, franciscanos e jesuítas instalam-se em Torres Vedras partir de 1860/61. No contexto das necessidades intelectuais e educacionais destas comunidades formam-se novas bibliotecas religiosas. Com a implantação da República a história de 1834 repete-se. Assiste-se a uma segunda incorporação dos bens culturais das ordens religiosas no Estado. E novamente a incorporação das bibliotecas conventuais de Torres Vedras esteve envolta em polémica.

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De acordo com os dados publicados no Anais das Bibliotecas e Arquivos pela Inspecção de Bibliotecas Eruditas e Arquivos, entidade incumbida da incorporação das bibliotecas pertencentes às organizações religiosas extintas, levaram-se para a Biblioteca Nacional cerca de 7 000 / 8 000 volumes da biblioteca conventual do Varatojo, incluindo 70 volumes de livros e maços manuscritos e 17 pergaminhos (VALDEZ, 1914, p. 47). Da Casa Congregacionista do Barro, incorporaram-se 10 000 volumes provenientes das 3 bibliotecas de uso interno da instituição: a biblioteca dos juniores, a biblioteca dos mestres e a biblioteca grande (DANTAS, 1914, p. 2). Para a Torre do Tombo recolheram-se os cartórios da Colegiada de Santa Maria do Castelo e da Colegiada de S. Pedro (VALDEZ, 1915, p. 84, 85).
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Bibliografia:
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BARATA, J. S. Paulo (2003) - Os livros e o Liberalismo: da livraria conventual à biblioteca pública. Lisboa: Biblioteca Nacional, p. 31, 32, 98, 100, 101
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DANTAS, Júlio (1914) - Serviço de Incorporações pela Inspecção de Bibliotecas Eruditas e Arquivos. Anais das Bibliotecas e Arquivos [cd-room]: Lisboa. V. 1, n. 1 (Out. 1914), p. 2
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VALDEZ, José Joaquim Ascenção (1914) - Livraria da Mitra Patriarcal e do Convento do Varatojo. Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal [cd-room]: Lisboa. V. 1, n. 1 (Out. 1914), p. 47
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IDEM, (1915) - Livrarias das Casas Congregacionistas da Companhia de Jesus em Setúbal e Barro; Cartórios das Colegiadas de Santa Maria do Castelo e de S. Pedro em Torres Vedras. Anais das Bibliotecas e Arquivos [cd-room]: Lisboa. V. 1, n. 2 (Jan. 1915), p. 84, 85
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Fontes:
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Arquivo Municipal de Torres Vedras - Livro de Acórdãos n.º 27 (1834 - 1842)

A Biblioteca do Convento dos Clérigos Regulares (Teatinos)

A ordem religiosa dos Clérigos Regulares, vulgo Teatinos, estabeleceu-ce em Portugal, mais exactamente em Lisboa durante o reinado de D. João IV (1640 -1656). Alguns dos seus membros destacaram-se no cultivo das letras nos séculos XVII e XVIII, como por exemplo o Padre Rafael Bluteau, autor do Vocabulário Português editado em 12 volumes entre 1712 e 1728, o Padre D. Manuel Caetano de Sousa, o principal mentor da fundação da Real Academia Portuguesa de História em 1720 e o Padre D. António Caetano de Sousa, escritor da História Genealógica da Casa Real, obra em 14 volumes, saidos à luz entre 1735-1749. Ao longo do tempo os religiosos teatinos acumularam uma excelente biblioteca descrita deste modo por D. Tomás Caetano de Bem, o historiador da ordem em Portugal:
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« Este corpo [do edifício conventual] se divide em duas partes: Huma, conforme o risco, há de occupar a Igreja. A porta principal desta fica direita ao Norte; e a Igreja corre á vontade, e arbitrio para o Meio-dia, a que dão as costas a Capella mór, e Coro, e atrás deste se segue a casa da Portaria. Ao meio do lado da parte Nascente he o lugar da torre; e sobre a Portaria o da sala da Livraria. [...]. Huma Livraria composta de dezoito mil voumes, todos selectos, e muitos raros, e não poucos rarissimos, como escolhidos, e juntos pelos doutissimos Religiosos, que florescêrão nesta Casa, que em todas as sciencias póde servir de grande instrução. O Augustissimo Rei D. João V cujo nome igualmente por suas raras virtudes, que por sua grandeza, será eternamente indelevel, como tão amante das Sciencias, e favorecedor dos seus Professores, e verdadeiros Sabios, a veio ver mais de huma vez; e mostrou della fazer grande estimação, e particular gosto, de que semelhante Colleção de livros se conservasse, como hum ornato não menos precioso da sua Corte. Ennobrece a esta Livraria huma copiosa porção de Livros, pertencentes á Historia de Portugal, em que se achão os Authores, que della escrevêrão, não só os nacionaes, mas estrangeiros, a que acompanha huma Bibliotheca volante, isto he, de pequenas Obras, impressas na mesma materia. Muitos Manuscriptos Historico, Politicos, Geograficos,Genealogicos, e Poeticos, Latinos, e vulgares. Huma grande Collecção de Mapas de Portugal, e terras de seus Dominios, em que se achão muitos de Cidades, Praças, Ilhas, Batalhas, &c outra de immensas estampas de Reis, e Varões Portuguezes, ilustres em virtude, ou letras, dignidades, &c e estas collecções se devem á curiosidade, e desvelo do Padre D. José Barbosa, como escrevendo sua vida mais largamente se dirá. Huma gallaria, ou collecção de estampas, e muitas destas primorosamente illuminadas, em diversos Tomos de diferente grandeza, em que se vê a Historia Biblica, as Taboas da célebre Carlota Catharina Patina, Cidades, e Paizes, e seus paizanos com os particulares trajes; edificios, jardins, palacios, fontes, retratos de Santos, e pessoas Ecclesiasticas, Reis, Rainhas, Principes, Princezas, Heroes, Generaes, Fabula, e Historia Natural, festejos publicos com mascaras, e bailes, sellos, ou cifras, desenhos de Callot, &c que de França, e Italia trouxe o Padre D. Rafael Bluteau. Huma numerosissima collecção de estampas, em que se vem debuxados de mão, ou gravados a buril os Escudos das Armas das Familias Nobres de Portugal; e outra igualmente numerosa de Medalhas Gregas, Romanas, Arabigas, Portuguezas, e de outras Nações, e de alguns Papas, e outras semelhantes raridades, as quaes inteiramente formou a curiosidade de que isto escreve. Sobre a porta da grande casa, em que se acha actualmente collocada esta numerosa Livraria, se vem os retratos de meio corpo, e bem ao natural dos dous famosos Sabios, e Religiosos desta Casa o Illustrissimo Padre D. Manoel Caetano de Sousa, e D. Rafael Bluteau, por serem aquelles, que para seus tão vastos estudos juntárão a maior parte dos volumes, de que se fórma o corpo da mesma Livraria; e para que de tanto beneficio ficasse de algum modo perpetuo o agradecimento em perduravel memoria, compoz o Author desta Historia o seguinte Epigramma, em que se exprime esta noticia, e lhes servisse de necessaria, e devida inscripção, ainda que curta, e menos elegante:

Quos Sophiae studium doctos cumulare libellos Impulit, hos mirum picta tabella refert. Emmanuel Sousa, et Raphael Blutawins alter: Quisque Thienaei gloria prima chori. Si superis placitum hos etiam nunc ducere vitam, Amplior haud ipsis Bibliotheca foret.» (Caetano de Bem, 1792, p. 181-182)

Bibliografia:

CAETANO DE BEM, Thomaz, D. (1792) – Memorias Historicas Chronologicas da Sagrada Religião dos Clerigos Regulares em Portugal , e suas Conquistas na India Oriental. Lisboa: na Regia Officina Typhografica, 1792, tomo 1

Alguns aspectos da Biblioteca Real de D. João V (1707 - 1710)

Vários autores afirmaram ter sido o rei D. Afonso V (1432 -1481) o fundador da Biblioteca Real, desconhecendo-se porém o ano da fundação (Ribeiro, 1914, p. 62). Provavelmente terá sido instituída durante a presença do Infante D. Pedro, antigo Regente e tio do rei, na corte como conselheiro real. O Infante D. Pedro, pessoa erudita, amiga da cultura e do conhecimento deverá ter influenciado o seu sobrinho a tomar tal iniciativa. A primitiva Biblioteca Real estava localizada no Paço Real de Évora (Ibid., p. 62) e só posteriormente, talvez no reinado de D. Manuel I (1495 - 1521), transferiu-se para o Paço da Ribeira em Lisboa. A Biblioteca Real afonsina seria ainda marcadamente medieval, detentora de um fundo documental pouco extenso para os padrões actuais e eventualmente confinada a um espaço reduzido no complexo palaciano, embora pudesse contar com a generosidade do tesouro real que adquiriu muitos impressos e manuscritos e com a diligência de Gomes Eanes de Azurara, o seu primeiro bibliotecário, que a pôs em ordem (Ibid., p. 63).
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Naturalmente a Biblioteca Real passou por períodos de prosperidade variável conforme o estado das finanças reais e o maior ou menor gosto das letras por parte dos reis. Mas a partir da primeira metade do século XVI uma conjugação de factores vão possibilitar o desenvolvimento incessante das bibliotecas reais europeias. A complexidade da administração do estado que conduz à fixação geográfica permanente da corte real no espaço palaciano, a divulgação crescente do livro impresso e sobretudo a instrumentalização da biblioteca como meio de prestígio da monarquia, fazem os reis adoptar uma política de fomento biblioteconómico através de uma aquisição documental mais intensa e regular, a dotação de mais meios materiais e humanos e a expansão espacial destas no interior do complexo arquitectónico do palácio real. Em Portugal esta interacção de factores ocorre a partir do reinado de D. Manuel I, sendo no entanto interrompida com a monarquia dualista filipina, que afasta a corte para Madrid durante 58 anos. Quando D. Filipe I em 1583 parte de Lisboa para Madrid deixa o Paço da Ribeira sem rei, entregue aos seus representantes, ocupantes de cargos políticos temporários, carenciados de legitimidade e talvez de interesse para manter uma política de engrandecimento da Biblioteca Real num palácio sem rei e sem corte. Cumulativa a esta realidade, está o crescente deficit financeiro da realeza filipina até 1640, postergando a aquisição de documentos para objectivos secundaríssimos. O absentismo dos monarcas filipinos deve ter deixado a Biblioteca Real parada no tempo durante 58 anos.
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Com a Restauração, o Paço da Ribeira voltou a ser habitado por um rei, D. João IV (1640 - 1656). A Biblioteca Real recuperou a sua dignidade, e o mais importante, foi acrescentada com novos livros, pois em 1648 D. João IV transferiu uma grande parte da biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa, de dimensões bastante razoáveis, para a biblioteca do Paço da Ribeira (Ferreira, 1940, p. 59). Mas foi no reinado de D. João V (1707 - 1750) que a Biblioteca Real alcançou o seu período áureo, mercê do espírito mecenático do rei, do prestígio da monarquia joanina e das receitas do ouro brasileiro.
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No âmbito da política de engrandecimento da realeza, D. João V, logo no primeiro ano de reinado manda reformar o Paço da Ribeira, para acolher com o máximo esplendor a sua esposa D. Maria Ana de Áustria, filha do Imperador Romano Germânico Leopoldo I. A Biblioteca Real mudou de sítio, porque no espaço que ocupava fez-se uma divisão reservada aos negócios do Cabido (Pimentel, 1992, p. 121). O novo espaço seria maior para poder acomodar as remessas de livros encomendas nas várias cidades europeias.

O torreão poente do Paço da Ribeira. A Biblioteca Real ocupava o segundo piso do edifício, destruido pelo terramoto de 1755. Pormenor da gravura de Dirk Stoop de 1662 representando o embarque da infanta D. Catarina, Rainha de Inglaterra. Fonte: URL: http://www.arqnet.pt/portal/imagemsemanal/junho0303.html

A par de um novo espaço D. João V decidiu aumentar substancialmente o fundo documental da sua biblioteca. Encomendou ao corpo diplomático português nas principais cortes europeias livros e até bibliotecas particulares vendidas em leilão como fez com o padre. D. Luís Caetano de Lima, clérigo teatino e secretário do embaixador português em Haia entre 1710 e 1718:

«Foi também [Padre D. Luís Caetano de Lima] em differentes occasiões encarregado da compra de numerosas partidas de livros, e de algumas livrarias inteiras, que por aquelle tempo se vendêrão em Hollanda, de que o Grande Rei D. João V formou a sua numerosissima, e selecta Bibliotheca. E talvez este seria o fim, e o motivo, por que o mesmo Monarca lhe mandou entregar algumas cedulas em branco, e sómente firmadas de seu Nome, pela sua Real Mão, das quaes as que o dito Padre ainda conservava em seu poder, voltando para Lisboa, pessoalmente entregou ao mesmo soberano.» (Caetano de Bem, 1794, p. 147).

E D. Luís da Cunha, embaixador português em Haia, adquire entre 1728 e 1731 cerca de 9 remessas de livros enviadas à Biblioteca Real. O monarca mandou igualmente comprar livros, sobretudo de Teologia e Direito, para a Biblioteca da Universidade de Coimbra (Veiga, 1991, p. 37, 41, 50 - 51, 53, 56, 59 - 60, 71, 82 - 84, 90, 93). A bibliofilia real era conhecida em determinados círculos da Europa pois em 1746 foi-lhe entregue através embaixada portuguesa em Paris o catálogo da biblioteca do Abade de Orleães para uma eventual compra (Ibid., p. 344). D. João V também subsidiou vários escrivães em Roma, na Biblioteca do Vaticano, para transcreverem as obras originais dos Santos Padres a fim de colocar na biblioteca as respectivas cópias [1].

Esta política de aquisições sujeitava- se a um rigor selectivo pois já no século XVIII havia a consciência de que na imensidão dos livros nem todos eram merecedores das bibliotecas, especialmente de uma biblioteca real. A vulgaridade dos livros, a maioria de gosto popular, publicados sem critério excepto o comercial, era vista por alguns intelectuais como um mal cultural, uma “praga” da república das letras (Mota, 2003, p. 77-78). Por conseguinte nomeou-se uma comissão de sábios responsável pela política de aquisições e de catalogação da Biblioteca Real, que D. Francisco Xavier de Menezes, 3º Conde da Ericeira menciona nos comentários à Bibliotheca Sousana:

« Já ponderey (como agora repito no Catalogo de huma Biblioteca Selecta, que o Author deixou muito adiantado) quando era util o conhecimento dos Authores escolhidos, de que huma Livraria deve comporse, não occupando indignamente os maos livros os lugares dos selectos, o tempo, e a despeza dos estudiosos, sendo aquella vulgar multidão a que, diz Seneca, distrahe, e não instrue aos que aprendem. Nos ultimos dous seculos tem sido utilissima esta applicação, a que chamão superficial os que o são nos seus estudos. Empregava-se o nosso Author [D Manuel Caetano de Sousa] na primeira, e mais nobre parte da numerosa, e excellente Livraria, que el Rey tem, e formou, conserva, e augmenta mais na sua comprehensão, que no seu Palacio. Ao Padre D. Manoel tocou a parte, que comprehende a Biblia, e os seus Expositores. Ao Illustrissimo João da Mota e Sylva, então Conego Magistral da Santa Igreja Patriarchal, hoje Eminentissimo, e dignissimo Cardeal da Santa Igreja Romana, se distribuîo a Theologia em todas as suas divisoens. Ao Illustrissimo Paulo de Carvalho e Attaide, o Direito Canonico, e Civil. Ao Doutor Francisco Xavier Leitão, Medico da Camera de Sua Magestade, e hoje digno Academico da Academia Real, pertencerão os livros de Filosofia e Medicina. Ao Excellentissimo Marquez de Alegrete Fernão Telles da Sylva, do Concelho de Estado, se fiou a Filologia. Ao Excellentissimo Marquez de Abrantes, Gentil homem da Camera, a Historia. E a mim, para que a eleição só nesta parte não fosse igual, a Mathematica, e as outras Artes. Os Catalogos, que anciosamente desejamos ver impressos, erão todos com Critica judiciosa, e o que fez o Reverendissimo Padre D. Manuel merecia hum titulo à parte nesta Bibliotheca Sousana. » (Academia Real da História Portuguesa, 1736, p. 45 -47).

Os catálogos dos cerca de 30 000 volumes que compunham a Biblioteca Real nunca chegaram a ser publicados e quase tudo acabou entre escombros e cinzas no dia 1 de Novembro de 1755. Desaparecera uma grande e selecta biblioteca com muitas preciosidades bibliográficas, obras raras e únicas.

Notas:

[1] Relação do horrível e espantozo terremoto que padeceu o Reino de Portugal com especialidade a corte de Lisboa sua Metrópole em 1º de 9bro do anno de 1755 escrita por hum curiozo, para memoria das Idades Futuras, manuscrito de 1756 incluído no tomo 2 da colectânea de textos sobre o terramoto entitulado Biblioteca Volante ou colleção de relações dos lamentáveis effeitos que fez o Terremoto do 1º de Novembro de 1755, compilados e reunidos por Fr. Matias da Conceição em 1756, fol. 9 - fol. 9v.

Bibliografia:

ACADEMIA REAL DA HISTÓRIA PORTUGUESA (1736) - Collecçam dos Documentos e Memorias da Academia Real da Historia Portugueza...Lisboa: na Officina de Joseph Antonio da Sylva

CAETANO DE BEM, Thomaz, D. (1794) – Memorias Historicas Chronologicas da Sagrada Religião dos Clerigos Regulares em Portugal , e suas Conquistas na India Oriental. Lisboa: na Regia Officina Typhografica, 2º vol., 2º tomo

FERREIRA, Carlos Alberto (1940) - As Livrarias Reais de D. João IV a D. João VI, in Congresso do Mundo Português, [Lisboa]: Comissão Executiva dos Centenários, vol.VII, tomo 2º

MOTA, Isabel Ferreira da (2003) - A Academia Real da História: os intelectuais, o poder cultural e o poder monárquico no séc. XVIII. Coimbra: Minerva

PIMENTEL, António Filipe (1992) - Arquitectura e Poder: o Real Edifício de Mafra. Coimbra: Universidade de Coimbra

RIBEIRO, José Silvestre (1914) - Apontamentos históricos sobre bibliotecas portuguesas. Coimbra: Imprensa da Universidade

VEIGA, Raul da Silva (1991) - Catálogo de Documentos do Cartório de D. Luís da Cunha (1709 - 1749). Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica

D. Manuel Caetano de Sousa e as bibliotecas de Itália em 1710 I

Após a invenção da tipografia por volta de 1450 dá-se por toda a Europa um rápido incremento das bibliotecas. O novo processo tecnológico de impressão de caracteres sobre papel transforma a concepção do livro enquanto trabalho artesanal laborioso, demorado, caro, reservado e de produção exclusiva das comunidades religiosas monacais. O fabrico do livro torna-se na actividade profissional dos tipógrafos que o fazem em série, com mais baixos custos de produção, logo a preços mais acessíveis ao consumidor, sendo este o primeiro produto industrial da civilização ocidental. Calcula-se que só nos primeiros 50 anos de imprensa (1450 - 1500), se tenha editado perto de 20 milhões de exemplares, quantidade bastante apreciável para a baixa demografia da época e sobretudo para a dimensão do público leitor (Febvre; Martin, 2000, p.322). Com o livro mais económico, as bibliotecas acumulam património bibliográfico a um ritmo gradualmente mais acelerado e pertencem a um expectro social mais diversificado. As personalidade eclesiásticas e aristocráticas deixam de ser as únicas a constituir bibliotecas particulares. A magistratura, o funcionalismo régio e alguma burguesia urbana passam a ser também uma faixa importante do público leitor (Ibid., p. 339-341).
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Ao mesmo tempo aumenta o interesse pela nova e velha cultura, expresso no renascimento da literatura clássica, na descoberta de novos continentes e civilizações e na revolução científica do século XVII. No seio deste ambiente cultural surge a figura do coleccionador. Este recolhe todo o material que possa contribuir para o conhecimento do mundo e dos homens, incluindo-se nesta vaga definição o livro. Os coleccionadores de livros, os bibliófilos, procuram e discutem entre si as diversas edições de uma obra, manuscritos, livros únicos, raros, proibidos, etc… (Nuovo, 2003, p. 30-33, 39-41). Desenvolve-se uma certa “ciência dos livros” e um meio intelectual especializado em bibliografia, no qual se publicitam bibliotecas formidáveis que aguçam a curiosidade desses homens.
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Um desses foi D. Manuel Caetano de Sousa (1658 - 1734), religioso teatino, eleito representante da sua comunidade religiosa ao Capítulo Geral da Ordem dos Clérigos Regulares realizado em Roma no ano de 1710. Planeou a viagem de modo a visitar demoradamente as principais bibliotecas italianas (Mota, 2003, p. 29-33). Foi uma viagem “filosófica”, de conhecimento das bibliotecas estrangeiras e do que por lá se fazia em matéria de "Ciência Bibliotecária". D. Tomás Caetano de Bem, autor das Memórias Históricas dos Clérigos Regulares em Portugal, descreve o périplo caetaneano no universo das bibliotecas transalpinas:
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« [...] Depois de sahir o Grão Duque [Florença], sahio a visitar o seu Bibliothecario o célebre, e tão famoso Antonio Magliabecchi, tão instruido na Historia Literaria, e conhecimento dos livros, e de quem o mesmo Padre Sousa em suas Memorias affirma ser monstruoso em a sciencia Bibliothecaria. Este o recebeo com notaveis honras, e passárão logo a falar em livros; e Magliabecchi se queixou dos poucos, que de Hespanha passavão a Italia; e o Padre Sousa lhe deo noticia de alguns, que elle ainda não conhecia. Tambem lhe perguntou por algum Author, que tratasse de Capella Regia; porém não achou maior noticia que a que tinha. Dando-lhe o Padre Sousa noticia de algumas obras, que tinha composto, elle o persuadia a que désse à luz a Bibliotheca Theatina continuada; mas que primeiro que tudo publicasse a Dissertação sobre o Purgatorio do Papa Inocencio III. [...]
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O Convento de Santa Maria Novella de Religiosos Dominicanos merecendo toda a attenção, não podia escapar á curiosidade do Padre Sousa. [...] tem huma boa Livraria, que está no topo: tem dous gabinetes, que servem para estudar em tempo de inverno, e que tambem estão cheios de livros. Vio o Noviciado, e diz, que este só fórma hum bom Convento, e que tem sua Livraria particular, e não pequena. [...]
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Passou a ver o Convento de S. Marcos, que he de Padres Dominicanos [...]. Vio a Livraria, que he huma grande casa: he de tres naves, cujos arcos se firmão sobre vinte e quatro columnas de finissimo marmore, e bastante grossura, doze por cada lado: tem de comprido mais de duzentos palmos, e quarenta de largo. Para lograr mais luz, tem muitas janellas, e por isso menos livros: estes estão fechados com as grades, que fórmão planchetas de ferro, na fórma das que chamamos gelosias. Aqui se conservão muitas obras manuscriptas, e de grande estimação: entre elas se vem os originaes das que compoz Santo Antonino, cujo corpo está na Igreja do mesmo Convento.
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Deste Convento [Convento de Santa Cruz, de Franciscanos] passou a outro, que chamão Abbadia, e he de Monges Benedictinos: obra antiga, em que se acha uma notavel Bibliotheca. He casa pequena, mas aqui se encontra hum grande numero de manuscriptos, assim Gregos, como Latinos, e de materias assim Ecclesiasticas, como Seculares: aqui lhe foi mostrado o original da vida do nosso Portuguez D. Gomes Ferreira, que em Italia tem por Beato, e seu corpo guardão com veneração. Foi este livro escrito no tempo da Regencia do nosso Infante D. Pedro, chamado o da Alfarroubeira, e a elle dedicado; e diz o Padre, que está escrito em muito bom Latim, e em bom caracter de letra, conforme aquelles tempos. O Padre D. Placido Puccinelli, Monge Cassinense, e Antiquario desta Abbadia de Florença, escreveo em Italiano a vida deste Beato com o seguinte titulo: Vita del Beato Gometio Portughese, Abbate della Badia di Fiorenza, Generale delli Camaldolensi, Segretario, e Teologo della Republ. Fiorentina dell’ insigne Monastero delle Murate, Riformatore di molti Monasteri, Commendatore di S. Croce di Coimbra, e Nuncio Apostolico nel Regno de Portugallo: da molti manoscriti fedelmente cavata. Impressa em Milão por João Pedro Romellati anno 1645 in 4.º e pag. 112 existe em a nossa Bibliotheca. O Padre D. Virginio N. Leitor, e Bibliothecario, muito noticioso de Livros, lhe deo noticia da Obra Paleographia Graeca, que o Padre D. Bernardo Montfaucon, Religioso Benedictino da Congregação de S. Mauro em França, tinha publicado no anno antecedente; na realidade muito util para a intelligencia dos caracteres Gregos antigos, como para o conhecimento dos Latinos he precisa a que o Padre D. João Mabillon da mesma Congregação escreveo, intitulada De Re Diplomatica, novamente impressa em París em 1709. […] Nesta Livraria se achão mais de dous mil manuscriptos preciosissimos, Hebraicos, Caldaicos, Gregos, Latinos, Arabigos, Italianos, e Francezes, e quasi todos com excellentes illuminações. Muitos originaes: os de Sannazaro, e Petrarcha, diz o Padre Sousa beijára. Aqui se guarda hum exemplar da Biblia Latina impressa em Moguncia por João Fust, Cidadão, e Pedro Schoeffer, Clerigo da mesma Diocese, em 1462 de cuja rarissima edição vimos em Lisboa quatro exemplares, hum na Real Bibliotheca, outro na Bibliotheca dos Padres da Congragação do Oratorio: ambos estes exemplares se consumírão no incendio, que padeceo esta Capital no I de Novembro de 1755. Outro exemplar na Livraria do Eminentissimo Cardeal D. João Cosme da Cunha; e outro em poder do Bispo de Béja Dom Fr. Manoel do Cenaculo, e ambos estes existem. He em folha, o caracter da letra parece manuscripto, mas he bem formado. E tambem aqui se acha a edição de Cornelio Tacito, feita em Roma por ordem do Papa Leão X em 1515 fol. e junto a esta os primeiros sinco livros dos Annaes do mesmo Author, que no mesmo tempo se descubrírão em Alemanha, e são manuscriptos. Em a Livraria desta Communidade se achão as obras de Cornelio Tacito, publicadas por Beato Rhenano em Basileia na Officina Frobeniana em 1533 fol. edição tão rara, que escapou á diligencia do vigilantissimo indagador João Nicolao Funccio, da qual se acha na Bibliotheca desta nossa Communidade hum exemplar. Acha-se hum manuscripto de Virgilio em letra de caracter redondo, que tem mil e trezentos annos de antiguidade, e nelle se acha escrito hum Epigramma feito pelo nosso Portuguez Achilles Estaço. Achão-se alguns manuscriptos Gregos nunca impressos. Aqui se acha manuscripta a Historia de Bernardo Oricelario, que nunca foi impressa, por causa de referir com demaziada sinceridade as horrorosas hostilidades que os Francezes (a quem sempre chama Barbaros) fizerão em Florença em tempo de Carlos VIII. E nesta obra faz o Author huma larga lamentação sobre o estrago, que padecêrão não só a Bibliotheca, e Museo da Casa de Medicis, mas ainda os mesmos Templos, e sepulturas. E lendo este lugar, se lembrou o Padre D. Manoel, e o Abbade Salvini da destruição feita neste seculo no Palatinado, e nos veneraveis monumentos de Spira. Vio os dous Tomos da Historia Geneologica da Casa de Gondi, que escreveo Mr. de Corbinelli, Gentil-homem originario de Florença, impressa em París em 1705 que tambem se achão em nosso estudo: edição tão estimavel pela magestade, e grandeza, que nella reluz, assim na perfeição dos caracteres, como na immensa copia de delicadissimas figuras, de que se orna. No topo desta Livraria se vião quatro esferas Armilares de bronze, segundo os quatro differentes systemas que há. Cada huma dellas descançava sobre os hombros de hum Athlante do mesmo metal, e este com hum joelho no chão, e com as mãos sustentando aos hombros a esfera, e postos sobre bases de madeira primorosamente lavrada. O diamentro das esferas he pouco mais, ou menos de palmo e meio. Estes livros estão todos encadernados em taboas, com chapas de latão, em que se vem abertas as Armas da Casa de Medicis. Era então guarda desta Bibliotheca D. N. Biscioni.

D. Manuel Caetano de Sousa e as bibliotecas de Itália em 1710 II

Passou a ver a Livraria do Grão Duque [de Florença]. He huma casa não muito grande, com nove ordens de livros, e no meio com tres grandes bofetes, em que estavão livros de estampas, e outros, que por sua grandeza não cabião nas estantes. Aqui estavão tambem algumas Arvores Geneologicas, e huma da Casa de França, e Baviera. Estava tambem huma das Ascendencias, e Descendencias da Casa de Medicis. Tem varanda á roda, como a da Annunciada, e S. Jeronymo, para a qual se sobe por huma escada de pedra, que fica fóra da Livraria; e tem seus armarios, em que os livros prohibidos estão fechados. As estantes todas tem redes de arame, com que tambem estão fechadas. Tem muitos livros modernos, e excellentes; e entre os que tratão de Historia, alli estavão muitos dos que tratão da Historia de Portugal, e entre estes o Nobiliario do Conde D. Pedro. Tem muitos manuscriptos, entre estes os originaes de Nicoláo Machiavello: o que se intitula o Principe, he volume in 4.º. A Historia de Florença he em folha, dedicada ao Papa Clemente VII. Muitos livros (e disse Magliabechi serem mais de dous mil) escritos em linguas Orientaes; e todos, ou quasi todos em encadernações muito estranhas, que mostrão serem feitos nas mesmas terras, em cujas linguas forão escritos. Muitos livros impressos em pergaminho, entre os quaes se via o Concilio Tridentino da edição de Manucio; e a vida de Leão X escrita por Paulo Jovio. As materias estavão separadas. Junto a esta casa havia sete casas cheias de livros por encadernar. No mais interior do Palacio ha outra Livraria, a qual, como diz o Cardeal de Noris, na Dedicatoria do seu livro intitulado Marmora Pisana, não consta mais que de livros Sagrados, e Authores Ecclesiasticos. Em hum dos referidos bofetes estavão vinte e dous Tomos de estampas, em que se representão as principaes acções da vida do Christianissimo Rei Luiz XIV. Para esta Bibliotheca diz o Padre D. Virginio Valsechi, Monge Benedictino, no seu Tratado De M. Aurelii Antonini Elagabali Tribunitia Potestate V. Dissertatio Historico-Chronologica, impresso em Florença anno 1711 que o Grão Duque Cosme III levára de Hespanha para Florença treze mil e trezentas Medalhas, com que enriqueceo a sua galeria: de que se póde inferir a grandeza de Hespanha, e o descuido, ou inercia de seus habitadores. Ve Giornale dé Letterati d’Italia, Tom. 7. an 1711. art. 7. pag. 57. […]
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Em Santa Maria in Campitello, [Roma] Casa dos Clerigos Regulares [...] estando na Livraria, que se compõe de muitos, e excellentes livros, vio hum manuscripto de boa letra, e bem illuminado em pergaminho, o qual erão as obras de Tito Livio. He esta Livraria insigne pelo grande numero de manuscriptos, que em si contém, de materias assim Canonicas, como Politicas, que forão do Cardeal Francoto, e outros. [...]
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No seguinte dia [2 de Março de 1710] foi a Santa Maria della Valicella, Casa dos Padres do Oratorio, a assistir a huma representação [...]. A Livraria tambem he insigne, com quatorze ordens de livros, separadas com huma varanda: em hum armario de vidraças estão os livros, de que usou S. Filippe Neri. [...] De tarde foi á Minerva a ver a Livraria; e diz que he tão grande, que para se comprehender, necessita ser vista mais de huma vez. […]
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Em 14 [Março de 1710] foi a Casa do Cardeal Imperiali para ver a sua famosa Livraria, que não vio por não estar em casa o seu Biblithecario o Abbade Justo Fontanini. Em companhia deste foi a casa do Cardeal Imperiali a ver a sua Livraria, que o seu Bibliothecario o Abadde Fontanini com suma attenção, e afabilidade lhe fez patente [...] Desta Bibliotheca se acha impresso o Catalogo em hum Tomo in fol. Cart. magn. em Roma anno 1711 por Francisco Gonzaga, obra neste genero muito estimada. […] e em 23 foi ver o Palacio do Principe Barbarini. [...] Vio a Livraria , que he copiosissima; e á entrada para esta se acha huma pequena casa, cujas paredes de alto a baixo se vem cubertas de retratos dos homens mais insignes do presente tempo [...]. A principal casa da Livraria he muito grande, e tem varanda : tem duas ordens de bofetes, que a deixão como dividida em tres corredores. No meio, em que há maior largura, se vem sobre bem lavradas bases grandes, e varias esferas, assim celestes, como armillares; e no corredor do meio estão duas estantes para sustentar livros de singular artificio. Huma destas he como a de Alcobaça, que roda sem deixar cahir os livros. He esta Bibliotheca, que juntou o Cardeal Francisco Barbarini, Vice-Cancellario da Igreja, tão copiosa, que o seu indice comprehendendo sómente os livros impressos, se vê impresso em tres Tomos in fol. & chart. maj. Romae, Typis Barbarinis excudebat Michael Hercules anno 1681. Entrando pela dita casa, á mão direita se vê hum grande armario: está este cheio de preciosos livros, huns de letras recortadas, outros escritos em linguas Orientaes, e outros em papel da China, e quasi todos ricamente encadernados. Aqui se acha em huma caixa certa especie de amianto, ou papel incombustivel: á mão esquerda, entrando na referida casa, e em correspondencia do sobredito armario, ha huma porta, que dá serventia para huma casa, a qual está cheia de armarios, em que se conservão rarissimos, e preciosissimos manuscriptos. Defronte da porta, que fica no meio do lado da grande Livraria, está outra em lado opposto, que dá entrada para outra casa, a qual está tambem cheia de livros , e aqui estavão alguns pertencentes á Historia de Portugal. [...] Desta casa se passa a hum pequeno Gabinete, ou Museo, em que se vem inumeraveis antigalhas, idolos de bronze, lucernas antigas, [...]. Ha neste Palacio aposentos para todas as estações do anno: a do Estio tem muitas fontes, e columnas de pedras; e entre estas se conservão por memoria quatro columnas Salomonicas, que servírão no tumulo honorario, que em Roma se fez para as exequias de Jacome II Rei de Inglaterra, as quaes lhe fizerão lembrar as que o Conde da Ericeira tinha na sua Livraria, e servirão para o tumulo nas exequias do Padre Antonio Vieira. Visitou depois o Cardeal Ottoboni, a quem agradeceo a licença que lhe mandára para ler livros prohibidos sem alguma limitação. Na Livraria de seu Auditor o Abbade Venturini, diz o Padre Sousa, víra a primeira vez os livros De Inconstancia in Judiciis, et Inconstantia in Fide, fol. Tom. II que escreveo o Cardeal Albizio; nota que bem indica a sua raridade.
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Foi ao Mosteiro da Cartuxa, aonde encontrou o Cardeal Imperiali, a quem disse, que alli o conduzíra o desejo de mostrar ao seu companheiro aquella grande Casa. Porque eu (disse o Padre Sousa) depois que vi a Livraria de Vossa Eminencia, perdi as esperanças de encontrar em Roma outra alguma cousa, que pudesse excitar a curiosidade, por ser esta a maior maravilha que tinha visto em Roma. Não desagradou ao Cardeal a expressão, e respondeo, que estimára muito que o seu Bibliothecario o tivesse servido, mostrando-lhe a Livraria. Ao que o Padre Sousa replicou, que o Abbade Fontanini seu Bibliothecario lhe tinha mostrado duas Livrarias: huma estavel, que era a de sua Eminencia; e outra deambulante, que era o mesmo Abbade. […]
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Em casa do Cavalheiro Mandosio soube que no dia antecedente elle o tinha buscado, e que lhe trazia huns Tomos da Bibliotheca Volante de Cinelli. Na verdade era cousa para desejar, que havendo tantos, que tem dado á luz noticia das obras grandes, que escrevêrão os Authores, assim antigos, como modernos, houvesse tambem algum, que tomasse o cuidado de fazer menção daquelles tratados e composições, que pela sua pequenez ou são totalmente desconhecidos, ou desprezados, talvez com injúria grande de Authores muito celebres, dos quaes o mais pequeno fragmento he precioso. A semelhante Colleção deo principio em Florença o Doutor João Cinelli Calvoli com o titulo de Bibliotheca Volante, por entrarem nella sómente obras volantes, isto he, Opusculos, cujo corpo não inclue mais de seis folhas, a qual obra se principiou a imprimir em Florença em 1677 em 8.º e della vimos a continuação até o Tomo XIII. Semelhante trabalho tomou o Academico Carlos Cartari, Ovietano, dando-nos a noticia dos que havia no Palacio dos Senhores Altieri, debaixo do titulo Pallade Bambina, overo Bibliotheca delli Opuscoli Volanti, che si conservano nel Pallazo delli Signori Altieri, etc. Roma 1694 in 4.º O mesmo se vê na obra Fasti dell’ Academia degl’ Intrecciati...riportati dal Registro, que si conserva presso Gioseppe Carpano, etc. Roma 1673 in 4º. [...]
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Em 18 [Junho de 1710] foi a casa do Cardeal Ottoboni, e vio a sua famosa Livraria. Constava esta de huma grande casa cheia de livros manuscriptos preciosissimos; outra, e muito maior, cheia de livros impressos, repartidos estes pelas materias, não entrando nesta os Legaes, porque destes se compunha a terceira casa. A quarta comprehendia preciosissimos livros de musica; e porque esta casa era a mais retirada, nella se conservavão tambem, e cuidadosamente fechados quatorze livros de Jacobio, em que se contém noticias Geneologicas das Familias de Italia, e de summa importancia pelas origens que lhes descobre, e principio dos Feudos, os quaes o Papa Alexandre VIII ordenou que a ninguem se mostrassem, senão com huma grande cautela, e resguardo. Na segunda casa estavão tambem treze volumes manuscriptos de Pirro Liguorio, cada hum da altura do Athlas de Sanfon. Aqui se achavão varias edições de Biblias, Gregas, Latinas, Hebraicas, Poliglotas, e Vulgares. Aqui estava a Biblia de Sixto V e de duas edições, a saber, do anno 1590 e 1592 ambas em folha, e da Typografia Vaticana. Tinha os globos celeste, e terrestre, de bastante ponto, e huma esfera armilar de bronze, de mais de dous palmos de diametro, segundo o systema de Ptolomeu. Em as encadernações de muitos destes livros se lião as seguintes palavras, formadas com letras de ouro: Ad usum Reginae, por terem sido da Rainha da Suecia Christina Alexandra, a qual falecendo em Roma, os deixou ao Papa Alexandre VIII e este a seu sobrinho o Cardeal Ottoboni. Aqui se conserva tambem a Bulla original da Confirmação do Concilio Florentino, que he hum documento de summa importancia em razão dos pontos, que nelle se definírão. O Index desta Livraria se continha em quatro Tomos de folha, e em outro a dos manuscriptos. [...]
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Estando em Casa de Antonio Magliabechi, este lhe mostrou a sua Livraria, ou para melhor dizer, parte della. Constava esta de innumeraveis livros, repartidos por varias casas, e não só em estantes, mas em montes: todos erão escolhidos, e a maior parte destes modernos, muitos mandados por seus Authores a este grande Bibliothecario, e muitos a elle dedicados. A parte da Livraria, que não vio, erão seis mil volumes; até na disposição do seu aposento se reconhecia a profissão de Filosofo. […]
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[Em Milão] Indo á Igreja da Paz, fez oração ao Altar, em que está a Imagem do Beato Amadeo, inclyto Portuguez, no seculo chamado D. João da Silva Mascarenhas. Tem na mão o livro das suas revelações, e na taboa exteriorda sua encadernação se lem as seguintes palavras: Aperietur in tempore Desta obra manuscrita temos em nosso estudo huma copia, que foi do uso do célebre D. João de Castro, que acompanhou o Senhor D. Antonio Prior do Crato, e faleceo em París. […] »
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Para esta narrativa, D. Tomás Caetano de Bem, baseou-se nas memórias manuscritas de D. Manuel Caetano de Sousa. A visita às bibliotecas parece que foi o ponto alto da viagem, apesar de ser apenas um objectivo secundário, pois o objecto primordial desta era a assistência ao Capitulo Geral da Ordem. Era um amante de livros, e sobre esta paixão acrescenta-se ainda:
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« Teve grande memoria, e dos livros de seu uso tal conhecimento, que sómente pelo tacto os conhecia; e isto sendo a sua Livraria tão numerosa, que passava de sete mil volumes. Foi de tão feliz memoria, que mandando algumas vezes pedir emprestados livros, que tinha visto em outras Bibliothecas ainda mais numerosas que a de seu uso, mandava dizer o lugar, em que elles estavão. [...] Já dissemos, quão copiosa era a sua Livraria, porque para a compra de livros destinava a maior parte dos seus ordenados, e da tença que gozava. E além destes juntou muitas Memorias Mss para a Historia de Portugal, assim Politica, como Gentilicia, e principalmente para a Ecclesiastica, tanto das duas Dioceses de Lisboa, e Algarve, de cujos Prelados tinha a seu cargo na Real Academia escrever as vidas na lingua Latina; como dos Sumos Pontifices, Cardeaes, e Bispos Portuguezes, que tiverão Diocese fóra deste Reino, e suas Conquistas, de que em varias Conferencias da mesma Academia [Academia Portuguesa, instituida pelo 4º Conde da Ericeira] deo conta, e com maior individuação na Conferencia de Outubro de 1721. […] Antes de falecer desejou muito mandar pôr na Livraria commua da Casa [biblioteca do convento em Lisboa] todos os livros, que para seu estudo, e uso tinha no seu aposento. [...] Foi sempre voluntariamente pobre; e posto que tinha tenças, huma pensão Regia, e seus ordenados, tudo empregou em sua vida em esmolas, e em livros. Destes ainda em sua vida poz a maior parte na Livraria da Communidade, […] » (Caetano de Bem, 1794, p. 459, 461).
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Bibliografia:
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CAETANO DE BEM, Thomaz, D. – Memorias Historicas Chronologicas da Sagrada Religião dos Clerigos Regulares em Portugal , e suas Conquistas na India Oriental. Lisboa: na Regia Officina Typhografica, 1792-1794, 2 vol., tomo 1, p. 329 - 461
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FEBVRE, Lucien; MARTIN, Henri-Jean - O aparecimento do Livro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000
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MOTA, Isabel Ferreira da - A Academia Real da História: os intelectuais, o poder cultural e o poder monárquico no séc. XVIII. Coimbra: Minerva, 2003
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NUOVO, Angela - Le biblioteche private (sec. XVI - XVII): storia e teoria, in La storia delle biblioteche: temi, esperienze di ricerca, problemi storiografici. Roma: Associazione Italiana Biblioteche, 2003

As bibliotecas perdidas de 1755

Como é do conhecimento geral, o terramoto de 1755 foi uma mega calamidade que se abateu sobre o centro e sul de Portugal. A destruição resultante fez-se sentir a vários níveis. Primeiramente foi uma tragédia humana. Segundo alguns cálculos na manhã de 1 de Novembro daquele ano teriam perecido cerca de 30 mil pessoas, só em Lisboa, sendo desconhecido o número de feridos e de inválidos subsequentes dos ferimentos. Além desta vertente humana, o terramoto foi um tremendo fenómeno de perda patrimonial. Perdeu-se bastante património arquitectónico, nomeadamente palácios, igrejas, conventos, com todo o seu recheio; mobiliário, pinturas, esculturas, tapeçarias, cerâmica, joalharia, enfim toda a cultura material de uma sociedade. No âmbito do património cultural, é de realçar a destruição do património documental, isto é, dos arquivos e das bibliotecas. Quanta documentação importante para a nossa memória colectiva se perdeu nesse dia? Teria-se a mesma visão da nossa História se esses documentos chegassem até nós? Que conhecimentos se perderam nesse dia fatídico? Desta prespectiva o 1 de Novembro de 1755 foi um dia de anti-memória e anti-História.

Ruínas da Igreja de S. Nicolau após o terramoto. Gravura da época. Seria aproximadamente este o aspecto dos edifícios que albergavam preciosas bibliotecas após 1 de Novembro de 1755. Os livros perderam-se irremediavelmente debaixo dos escombros ou queimados pelo incêndio causado pelo terramoto. Fonte URL: http://dossiers.publico.pt/dossier.asp?idCanal=1543

Este post recorda através de testemunhos contemporâneos as bibliotecas de Lisboa perdidas nesse catastrófico momento, não esquecendo os arquivos, que tiveram a mesma sorte. Joaquim José Moreira de Mendonça ao escrever sobre a causa dos terramotos, sendo-lhe cara a lição dos livros para a sua investigação recorda as perdas bibliográficas de 1755:

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«[...] Entre as muitas preciosidades, que consumiu o fogo foi muy sensivel aos Eruditos a perda de muitas, e numerosas Livrarias. Tem primeiro lugar a Bibliotheca real, que era numerosissima, e selecta. O Senhor Rey D. João V o Maximo, a tinha aumentado com grande numero de livros modernos, e todos os antigos, que se descobrirão pela Europa; e huma grande copia de bons manuscriptos, assim originaes, como copias bem escriptas, tudo effeitos da sua sabedoria, e magnificencia.

A do Marquez de Louriçal enchia, e ornava quatro grandes casas, e era selecta em livros raros, e excellentes manuscriptos. Tinha sido formada pelos Sabios Condes da Ericeira, e ultimamente aumentada, pelo Conde D. Francisco Xavier de Menezes, cuja sabedoria, e vastissima erudição, ainda depois de morto admira Portugal, e toda a Europa. A Bibliotheca do Convento de S. Domingos estava em duas grandes casas, e tinha muitos livros raros, e grande numero de manuscriptos, que para ella deixou o Eruditissimo Beneficiado Francisco Leitão Ferreira. Foi obra do Padre Fr. Manoel Guilherme, que a constituiu publica, com assistencia de dous Bibliothecarios, e renda grande para o seu aumento. No Convento do Espirito Santo havia huma grande, e selecta Livraria, e outra chamada Mariana, em que se admirava a mayor Colleção de livros, que tratassem de Maria Santissima, obra do Padre Domingos Pereira. Ficárão tambem reduzidas a cinzas as excellentes, e antigas Livrarias dos Conventos do Carmo, S. Francisco, Trindade, e Boahora. Tiverão o mesmo successo, todas as dos Palacios, que arderão, em que havia algumas muito estimaveis.

As particulares forão muitas, e entre estas era muito preciosa a do Inquisidor Simão Joseph Silveiro Lobo, por numerosa, e selecta. Em cinco casas de Mercadores de livros Francezes, Hespanhoes, e Italianos, e 25 loges, e casas de Livreiros Portugueses, se consumirão grandes Livrarias, de que se podião formar muitas copiosas, e excellentes. […] No Convento de N. Senhora da Graça, dos Eremitas do mesmo Santo, [Santo Agostinho] cahiu a sua grande Igreja, e rica Sancristia, a casa do Noviciado, e a formosissima casa da sua numerosa Bibliotheca, cujos livros tiverão muito estrago [...] » [1].

Lisbonne Abysmée. Gravura da época retratando o terramoto de 1755. Fonte URL: http://dossiers.publico.pt/dossier.asp?idCanal=1543

Joaquim José Moreira de Mendonça refere mesmo que a falta de bibliotecas atrasou a sua investigação, tendo-a concluído graças ao recurso à biblioteca da Congregação do Oratório no Palácio das Necessidades, uma das poucas que sobreviveu ao terramoto e às reminiscências documentais da biblioteca do Convento da Graça:

«Esta falta de tempo, o emprehender dar huma completa noticia dos effeitos do ultimo Terremoto (que não sei se já se findárão) e a inopia de livros, que tive no primeito anno, retardárão esta obra mais do que havia projectado. Ainda não poderia estar acabada, se desde o fim do anno de 1756 não tivesse a lição de muitos livros da numerosa, e selecta Bibliotheca da Real Casa de N. Senhora das Necessidades, aonde se admira a magnificencia do Senhor Rey D. João V sempre de gloriosa memoria. A’ urbanidade, e amor das letras dos Eruditissimos Congregados daquella Casa, devo a lição naquella grande Bibliotheca, que não está ainda colocada na formosissima Casa, que para ella se destina. Igual favor confesso dever aos Doutissimos Eremitas de Santo Agostinho, que logo que arrumárão a sua excellente livraria do Convento de N. Senhora da Graça, me admittírão nella, ainda antes de a franquearem ao publico, continuando o beneficio do seu uso, que nella introduziu o Padre Mestre Fr. Francisco de Santa Maria, hum dos grandes, e estimaveis Filhos de Santo Agostinho. A minha pequena Bibliotheca, não podia supprir as noticias, que alcancei naquelles dous Thesouros de bons livros.» [2] Um outro testemunho, este anónimo, identifica igualmente as principais bibliotecas e livrarias lisboetas destruídas pelo terramoto e o incêndio acompanhante: «[…] Certa pessoa, a quem devo [?] dar credito, por ser das de/ mayor entrada no Paço, e por cujas mãos passavão grossas/ quantidades de joyas, e dinheiro, affirmou, que em hu[m] e outro infortunio/ de fogo, e terremoto perdera o Rey dosentos e seten-/ ta milhoens!/ Ignora-se se meteria nesta conta a famosa Biblioteca Real composta de 30 mil volumes, alem dos manus-/ critos políticos de Ministros, q tinhão servido nas maiores cortes da Europa, com os originaes de quasi todos os S.tos/ Padres transcriptos por muitos amanuenses, q para este/ effeito sustentou a expensas suas na livraria do Vatica [sic]/ o grande Rey D. João 5º p.ª cujo extracto tinha concedido faculdade o Summo Pontífice Clemente 12º.

Assim mesmo acabarão as inextima-/ veis livrarias dos conventos de S. Domingos e S. Fran[cis]co/ do Duque de Lafoens, do Duque do Cadaval, do Conde de/ Vimieiro, as dos Desembargadores João Alvares da Costa/ Alexandre Ferreira, Monsenhor Pegado, as dos Doutores Francisco Xavier da Silva e José Caldeira; as dos con-/ tratadores de livros, Mons. Reiscend Mons. Faure, Miguel/ Rodrigues, Manuel Carvalho; e outras muitas de menos/ nome; porq[ue] tão bem as livrarias estavão em moda, e sem este a/ pendiculo [?] não se julgava bem ornada qualquer casa, ainda/ q fosse medianna! Junta com as mayores acabou a da casa/ da Ericeira, hoje Marqueses do Louriçal!» [3]

Estes testemunhos (e mais haverão com certeza) dão-nos apenas uma pequena noção do fabuloso património documental perdido: códices medievais únicos ou rarissímos, incunábulos, cimélios, manuscritos sobre as mais diversas matérias, etc... Praticamente nada restou, as bibliotecas de Lisboa tiveram de recomeçar os seus fundos bibliográficos do nada.

Notas:

[1] MENDONÇA, Joachim Joseph Moreira de – Historia Universal dos Terremotos, que tem havido no Mundo, de que ha noticia, desde a sua creaçaõ até o seculo presente. Com huma narraçam individual do Terremoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, América, aonde se estendeu: e huma dissertaçaõ phisica sobre as causas geraes dos Terremotos, seus effeitos, differenças, e Prognosticos; e as particulares do ultimo. Lisboa: na Offic. de Antonio Vicente da Silva, 1758, p. 129 - 131.

[2] Ibid., p. 3.

[3] Relação do horrível e espantozo terremoto que padeceu o Reino de Portugal com especialidade a corte de Lisboa sua Metrópole em 1º de 9bro do anno de 1755 escrita por hum curiozo, para memoria das Idades Futuras, manuscrito. de 1756 incluído no tomo 2 da colectânea de textos sobre o terramoto entitulado Biblioteca Volante ou colleção de relações dos lamentáveis effeitos que fez o Terremoto do 1º de Novembro de 1755, compilados e reunidos por Fr. Matias da Conceição em 1756, fol. 9, fol. 9v.