Notas de História e estórias de Portugal = Notes about History and stories from Portugal
A Biblioteca Nacional vista por Pessoa em 1925
As bibliotecas do convento de S. Domingos em Lisboa
A Biblioteca Universal
O bibliotecário e a hierarquia da leitura
Sala de leitura pública da Biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa. Note-se a presença de duas leitores femininas, possívelmente de leitura "popular", visto nesta época estarem as mulheres afastadas do ensino superior e da investigação. Foto de Joshua Benoliel. (fonte: Ilustração Portugueza, n.º 177 (12-6-1909).
Na 1.ª metade do século XX, ao contrário da actual rede de bibliotecas públicas que desde 1988 tem vindo a cobrir o território nacional, a quantidade de bibliotecas populares era diminuta para satisfazer a vontade de leitura da classe média portuguesa, mesmo nos meios urbanos. Perante esta situação de insuficiência, muitos leitores frequentavam algumas bibliotecas eruditas, transformando-as acidentalmente num espaço misto de leituras. "Eruditos" e "populares" partilhavam as mesmas salas de leitura. Qual era o pensamento dos bibliotecários sobre esta promiscuidade de leituras?
O Director da Biblioteca Municipal do Porto (apesar de municipal era considerada uma biblioteca erudita), Dr. Joaquim Costa, no manual de biblioteconomia escrito em 1943, a convite da editora Livraria Tavares Martins para integrar a linha editorial intitulada «Colecção para o povo e para as escolas» opina sobre a mistura de públicos e leituras.
«[...] Há Bibliotecas eruditas e de altos estudos onde se faz ainda, por transigência, que não deverá indefinitivamente manter-se, a leitura popular, amena ou recreativa.
Tal leitura é quási sempre prejudicial aos estudos sérios, que, a cada passo, perturba. Terá esta, portanto , de ser relegada às Bibliotecas populares, que não devem ficar longe delas.
A separação de tais leituras é útil, porque gradua a categoria especial da frequência e selecciona o pessoal que lhe assiste, dando maiores garantias e facilidades aos investigadores e estudiosos, que poderão deste modo, trabalhar mais à vontade e com muito maior proveito. [...].
Desenvolva-se a cultura popular, quanto seja possível; desenvolva-se e intensifique-se, mas não com grave prejuízo dos mais nobres trabalhadores do espírito. [...].
Prejudica-se sempre a cultura séria quando, cumulativamente e em grande número, se põe, ao lado dos melhores investigadores, cientistas ou eruditos consumados, leitores superficiais de obras insignificantes, sobretudo quando estes se mostrem irrequietos ou mal educados.
Preferir-se-á sempre a qualidade à quantidade, embora sem a inutilização desta. O trabalho do espírito exigirá, de-certo, algumas transigências. [...] (COSTA, 1943, pp. 36 - 38).»
O comentário do Dr. Joaquim Costa revela a mentalidade dos bibliotecários da época quanto à promiscuidade e eventuais conflitos de públicos. As leitura devia de estar hierarquizada em função do leitor, classificado em erudito ou popular, ou em função da finalidade, se de investigação/estudo ou de entretendimento. A cada leitura corresponderia um espaço próprio, estruturando-se assim uma selectividade de leitores. Mesmo em virtude da necessidade, provocada pela escassez de bibliotecas populares, a leitura de lazer e a leitura académica ou de investigação não se podiam cruzar, sob pena da primeira prejudicar a última. Neste contexto, o bibliotecário assume o papel de juíz das leituras. Avalia-as, hierarquiza-as e separa-as.
Antes dos marcadores de livros




Recibo de uma Contribuição Predial de 1855. (20.5 x 11cm, verso)
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Cartão ilustrado. Século XIX. (15 x 11 cm)
Biblioteca de Jardim
Leitura pública em Lisboa nos finais do século XVIII

Biblioteca do antigo Convento N. S. Jesus, actualmente o Salão Nobre da Academia das Ciências de Lisboa.
(Fonte: Academia das Ciências de Lisboa. ACL: Lisboa, 1999, p. 14)
Depois, em 1792, por iniciativa do douto Fr. José Mayne, passou a leccionar-se no Convento de N. S. de Jesus de Lisboa uma aula pública de História Natural com o fim de combater as ideias “Atheístas, e Polyteistas” emanadas do jacobinismo iluminista comprovando-se a “Existência de Deos, a sua Sabedoria, Providencia, Bondade, e mais Atributos” pelo estudo da “Sciencia da Historia Natural”. Provavelmente a biblioteca do Convento de N. S. de Jesus estaria à disposição do público estudantil, senão mesmo de outros leitores (BRIGOLA, 2003, p. 421).
Outro ponto de leitura acessível ao público, pelo menos em 1798, era biblioteca do Mosteiro de S. Vicente de Fora, uma das principais bibliotecas de Lisboa. O botânico alemão Heinrich F. Link, de visita a Portugal, expressou-me relativamente ao acesso a esta biblioteca do seguinte modo: «Uma terceira biblioteca [as outras bibliotecas eram a RBPC e a biblioteca do Convento N. S.ª de Jesus], no convento de S. Vicente de Fora, não é com efeito pública, mas para a poder frequentar regularmente basta ser apresentado.» (LINK, 2005, p. 139). Segundo as memórias de José Liberato Freire de Carvalho, monge do mosteiro em 1807, muita «gente de certa ilustração” frequentava a biblioteca, regularmente fornecida de livros vindos do estrangeiro pelo livreiro Rey.» (FREIRE, 1982, p. 23).
Embora pouco numerosas, estas referências dão uma leve impressão de que a leitura pública começa a despontar lentamente em Portugal no século XVIII e dentro do círculo das bibliotecas eclesiásticas. Os antigos fundos bibliográficos dos conventos e mosteiros ficam à disposição de investigadores e curiosos leigos. Tendo a cidade de Lisboa dezenas de grandes institutos religiosos, equipados com recheadas bibliotecas, surge na capital uma geografia da leitura pública ou semi-pública ainda antes do aparecimento da primeira biblioteca essencialmente pública em 1796.
Bibliografia:
BRIGOLA, João Carlos Pires - Colecções, Gabinetes e Museus em Portugal no século XVIII. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003
CARVALHO, José Liberato Freire de - Memórias de José Liberato Freire de Carvalho, 2.ª ed., introd. João Carlos Alvim. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982
LINK, Heinrich Friedrich - Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha, trad., introd., e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005
MENDONÇA, Joachim Joseph Moreira de – Historia Universal dos Terremotos, que tem havido no Mundo, de que ha noticia, desde a sua creaçaõ até o seculo presente. Com huma narraçam individual do Terremoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, América, aonde se estendeu: e huma dissertaçaõ phisica sobre as causas geraes dos Terremotos, seus effeitos, differenças, e Prognosticos; e as particulares do ultimo. Lisboa: na Offic. de Antonio Vicente da Silva, 1758
Plano e Regulamentos dos Estudos para a Congregação de S. Bento de Portugal: Primeira parte. Lisboa: na Regia Officina Typografica, 1789
A incorporação das bibliotecas e arquivos religiosos de Torres Vedras durante a Monarquia Constitucional e República (1837 / 1913)
Estante da biblioteca conventual do Varatojo antes da sua incorporação na Biblioteca Nacional. (fonte: VALDEZ, 1914, p. 46 a )
Tendo os proprietários particulares cedido os conventos do Varatojo e do Barro à Ordem de S. Francisco e à Companhia de Jesus respectivamente, franciscanos e jesuítas instalam-se em Torres Vedras partir de 1860/61. No contexto das necessidades intelectuais e educacionais destas comunidades formam-se novas bibliotecas religiosas. Com a implantação da República a história de 1834 repete-se. Assiste-se a uma segunda incorporação dos bens culturais das ordens religiosas no Estado. E novamente a incorporação das bibliotecas conventuais de Torres Vedras esteve envolta em polémica.
A Biblioteca do Convento dos Clérigos Regulares (Teatinos)
« Este corpo [do edifício conventual] se divide em duas partes: Huma, conforme o risco, há de occupar a Igreja. A porta principal desta fica direita ao Norte; e a Igreja corre á vontade, e arbitrio para o Meio-dia, a que dão as costas a Capella mór, e Coro, e atrás deste se segue a casa da Portaria. Ao meio do lado da parte Nascente he o lugar da torre; e sobre a Portaria o da sala da Livraria. [...]. Huma Livraria composta de dezoito mil voumes, todos selectos, e muitos raros, e não poucos rarissimos, como escolhidos, e juntos pelos doutissimos Religiosos, que florescêrão nesta Casa, que em todas as sciencias póde servir de grande instrução. O Augustissimo Rei D. João V cujo nome igualmente por suas raras virtudes, que por sua grandeza, será eternamente indelevel, como tão amante das Sciencias, e favorecedor dos seus Professores, e verdadeiros Sabios, a veio ver mais de huma vez; e mostrou della fazer grande estimação, e particular gosto, de que semelhante Colleção de livros se conservasse, como hum ornato não menos precioso da sua Corte. Ennobrece a esta Livraria huma copiosa porção de Livros, pertencentes á Historia de Portugal, em que se achão os Authores, que della escrevêrão, não só os nacionaes, mas estrangeiros, a que acompanha huma Bibliotheca volante, isto he, de pequenas Obras, impressas na mesma materia. Muitos Manuscriptos Historico, Politicos, Geograficos,Genealogicos, e Poeticos, Latinos, e vulgares. Huma grande Collecção de Mapas de Portugal, e terras de seus Dominios, em que se achão muitos de Cidades, Praças, Ilhas, Batalhas, &c outra de immensas estampas de Reis, e Varões Portuguezes, ilustres em virtude, ou letras, dignidades, &c e estas collecções se devem á curiosidade, e desvelo do Padre D. José Barbosa, como escrevendo sua vida mais largamente se dirá. Huma gallaria, ou collecção de estampas, e muitas destas primorosamente illuminadas, em diversos Tomos de diferente grandeza, em que se vê a Historia Biblica, as Taboas da célebre Carlota Catharina Patina, Cidades, e Paizes, e seus paizanos com os particulares trajes; edificios, jardins, palacios, fontes, retratos de Santos, e pessoas Ecclesiasticas, Reis, Rainhas, Principes, Princezas, Heroes, Generaes, Fabula, e Historia Natural, festejos publicos com mascaras, e bailes, sellos, ou cifras, desenhos de Callot, &c que de França, e Italia trouxe o Padre D. Rafael Bluteau. Huma numerosissima collecção de estampas, em que se vem debuxados de mão, ou gravados a buril os Escudos das Armas das Familias Nobres de Portugal; e outra igualmente numerosa de Medalhas Gregas, Romanas, Arabigas, Portuguezas, e de outras Nações, e de alguns Papas, e outras semelhantes raridades, as quaes inteiramente formou a curiosidade de que isto escreve. Sobre a porta da grande casa, em que se acha actualmente collocada esta numerosa Livraria, se vem os retratos de meio corpo, e bem ao natural dos dous famosos Sabios, e Religiosos desta Casa o Illustrissimo Padre D. Manoel Caetano de Sousa, e D. Rafael Bluteau, por serem aquelles, que para seus tão vastos estudos juntárão a maior parte dos volumes, de que se fórma o corpo da mesma Livraria; e para que de tanto beneficio ficasse de algum modo perpetuo o agradecimento em perduravel memoria, compoz o Author desta Historia o seguinte Epigramma, em que se exprime esta noticia, e lhes servisse de necessaria, e devida inscripção, ainda que curta, e menos elegante:
Quos Sophiae studium doctos cumulare libellos Impulit, hos mirum picta tabella refert. Emmanuel Sousa, et Raphael Blutawins alter: Quisque Thienaei gloria prima chori. Si superis placitum hos etiam nunc ducere vitam, Amplior haud ipsis Bibliotheca foret.» (Caetano de Bem, 1792, p. 181-182)
Bibliografia:
CAETANO DE BEM, Thomaz, D. (1792) – Memorias Historicas Chronologicas da Sagrada Religião dos Clerigos Regulares em Portugal , e suas Conquistas na India Oriental. Lisboa: na Regia Officina Typhografica, 1792, tomo 1
Alguns aspectos da Biblioteca Real de D. João V (1707 - 1710)
O torreão poente do Paço da Ribeira. A Biblioteca Real ocupava o segundo piso do edifício, destruido pelo terramoto de 1755. Pormenor da gravura de Dirk Stoop de 1662 representando o embarque da infanta D. Catarina, Rainha de Inglaterra. Fonte: URL: http://www.arqnet.pt/portal/imagemsemanal/junho0303.html
A par de um novo espaço D. João V decidiu aumentar substancialmente o fundo documental da sua biblioteca. Encomendou ao corpo diplomático português nas principais cortes europeias livros e até bibliotecas particulares vendidas em leilão como fez com o padre. D. Luís Caetano de Lima, clérigo teatino e secretário do embaixador português em Haia entre 1710 e 1718:
«Foi também [Padre D. Luís Caetano de Lima] em differentes occasiões encarregado da compra de numerosas partidas de livros, e de algumas livrarias inteiras, que por aquelle tempo se vendêrão em Hollanda, de que o Grande Rei D. João V formou a sua numerosissima, e selecta Bibliotheca. E talvez este seria o fim, e o motivo, por que o mesmo Monarca lhe mandou entregar algumas cedulas em branco, e sómente firmadas de seu Nome, pela sua Real Mão, das quaes as que o dito Padre ainda conservava em seu poder, voltando para Lisboa, pessoalmente entregou ao mesmo soberano.» (Caetano de Bem, 1794, p. 147).
E D. Luís da Cunha, embaixador português em Haia, adquire entre 1728 e 1731 cerca de 9 remessas de livros enviadas à Biblioteca Real. O monarca mandou igualmente comprar livros, sobretudo de Teologia e Direito, para a Biblioteca da Universidade de Coimbra (Veiga, 1991, p. 37, 41, 50 - 51, 53, 56, 59 - 60, 71, 82 - 84, 90, 93). A bibliofilia real era conhecida em determinados círculos da Europa pois em 1746 foi-lhe entregue através embaixada portuguesa em Paris o catálogo da biblioteca do Abade de Orleães para uma eventual compra (Ibid., p. 344). D. João V também subsidiou vários escrivães em Roma, na Biblioteca do Vaticano, para transcreverem as obras originais dos Santos Padres a fim de colocar na biblioteca as respectivas cópias [1].
Esta política de aquisições sujeitava- se a um rigor selectivo pois já no século XVIII havia a consciência de que na imensidão dos livros nem todos eram merecedores das bibliotecas, especialmente de uma biblioteca real. A vulgaridade dos livros, a maioria de gosto popular, publicados sem critério excepto o comercial, era vista por alguns intelectuais como um mal cultural, uma “praga” da república das letras (Mota, 2003, p. 77-78). Por conseguinte nomeou-se uma comissão de sábios responsável pela política de aquisições e de catalogação da Biblioteca Real, que D. Francisco Xavier de Menezes, 3º Conde da Ericeira menciona nos comentários à Bibliotheca Sousana:
« Já ponderey (como agora repito no Catalogo de huma Biblioteca Selecta, que o Author deixou muito adiantado) quando era util o conhecimento dos Authores escolhidos, de que huma Livraria deve comporse, não occupando indignamente os maos livros os lugares dos selectos, o tempo, e a despeza dos estudiosos, sendo aquella vulgar multidão a que, diz Seneca, distrahe, e não instrue aos que aprendem. Nos ultimos dous seculos tem sido utilissima esta applicação, a que chamão superficial os que o são nos seus estudos. Empregava-se o nosso Author [D Manuel Caetano de Sousa] na primeira, e mais nobre parte da numerosa, e excellente Livraria, que el Rey tem, e formou, conserva, e augmenta mais na sua comprehensão, que no seu Palacio. Ao Padre D. Manoel tocou a parte, que comprehende a Biblia, e os seus Expositores. Ao Illustrissimo João da Mota e Sylva, então Conego Magistral da Santa Igreja Patriarchal, hoje Eminentissimo, e dignissimo Cardeal da Santa Igreja Romana, se distribuîo a Theologia em todas as suas divisoens. Ao Illustrissimo Paulo de Carvalho e Attaide, o Direito Canonico, e Civil. Ao Doutor Francisco Xavier Leitão, Medico da Camera de Sua Magestade, e hoje digno Academico da Academia Real, pertencerão os livros de Filosofia e Medicina. Ao Excellentissimo Marquez de Alegrete Fernão Telles da Sylva, do Concelho de Estado, se fiou a Filologia. Ao Excellentissimo Marquez de Abrantes, Gentil homem da Camera, a Historia. E a mim, para que a eleição só nesta parte não fosse igual, a Mathematica, e as outras Artes. Os Catalogos, que anciosamente desejamos ver impressos, erão todos com Critica judiciosa, e o que fez o Reverendissimo Padre D. Manuel merecia hum titulo à parte nesta Bibliotheca Sousana. » (Academia Real da História Portuguesa, 1736, p. 45 -47).
Os catálogos dos cerca de 30 000 volumes que compunham a Biblioteca Real nunca chegaram a ser publicados e quase tudo acabou entre escombros e cinzas no dia 1 de Novembro de 1755. Desaparecera uma grande e selecta biblioteca com muitas preciosidades bibliográficas, obras raras e únicas.
Notas:
[1] Relação do horrível e espantozo terremoto que padeceu o Reino de Portugal com especialidade a corte de Lisboa sua Metrópole em 1º de 9bro do anno de 1755 escrita por hum curiozo, para memoria das Idades Futuras, manuscrito de 1756 incluído no tomo 2 da colectânea de textos sobre o terramoto entitulado Biblioteca Volante ou colleção de relações dos lamentáveis effeitos que fez o Terremoto do 1º de Novembro de 1755, compilados e reunidos por Fr. Matias da Conceição em 1756, fol. 9 - fol. 9v.
Bibliografia:
ACADEMIA REAL DA HISTÓRIA PORTUGUESA (1736) - Collecçam dos Documentos e Memorias da Academia Real da Historia Portugueza...Lisboa: na Officina de Joseph Antonio da Sylva
CAETANO DE BEM, Thomaz, D. (1794) – Memorias Historicas Chronologicas da Sagrada Religião dos Clerigos Regulares em Portugal , e suas Conquistas na India Oriental. Lisboa: na Regia Officina Typhografica, 2º vol., 2º tomo
FERREIRA, Carlos Alberto (1940) - As Livrarias Reais de D. João IV a D. João VI, in Congresso do Mundo Português, [Lisboa]: Comissão Executiva dos Centenários, vol.VII, tomo 2º
MOTA, Isabel Ferreira da (2003) - A Academia Real da História: os intelectuais, o poder cultural e o poder monárquico no séc. XVIII. Coimbra: Minerva
PIMENTEL, António Filipe (1992) - Arquitectura e Poder: o Real Edifício de Mafra. Coimbra: Universidade de Coimbra
RIBEIRO, José Silvestre (1914) - Apontamentos históricos sobre bibliotecas portuguesas. Coimbra: Imprensa da Universidade
VEIGA, Raul da Silva (1991) - Catálogo de Documentos do Cartório de D. Luís da Cunha (1709 - 1749). Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica
D. Manuel Caetano de Sousa e as bibliotecas de Itália em 1710 I
D. Manuel Caetano de Sousa e as bibliotecas de Itália em 1710 II
As bibliotecas perdidas de 1755
Como é do conhecimento geral, o terramoto de 1755 foi uma mega calamidade que se abateu sobre o centro e sul de Portugal. A destruição resultante fez-se sentir a vários níveis. Primeiramente foi uma tragédia humana. Segundo alguns cálculos na manhã de 1 de Novembro daquele ano teriam perecido cerca de 30 mil pessoas, só em Lisboa, sendo desconhecido o número de feridos e de inválidos subsequentes dos ferimentos. Além desta vertente humana, o terramoto foi um tremendo fenómeno de perda patrimonial. Perdeu-se bastante património arquitectónico, nomeadamente palácios, igrejas, conventos, com todo o seu recheio; mobiliário, pinturas, esculturas, tapeçarias, cerâmica, joalharia, enfim toda a cultura material de uma sociedade. No âmbito do património cultural, é de realçar a destruição do património documental, isto é, dos arquivos e das bibliotecas. Quanta documentação importante para a nossa memória colectiva se perdeu nesse dia? Teria-se a mesma visão da nossa História se esses documentos chegassem até nós? Que conhecimentos se perderam nesse dia fatídico? Desta prespectiva o 1 de Novembro de 1755 foi um dia de anti-memória e anti-História.
Ruínas da Igreja de S. Nicolau após o terramoto. Gravura da época. Seria aproximadamente este o aspecto dos edifícios que albergavam preciosas bibliotecas após 1 de Novembro de 1755. Os livros perderam-se irremediavelmente debaixo dos escombros ou queimados pelo incêndio causado pelo terramoto. Fonte URL: http://dossiers.publico.pt/dossier.asp?idCanal=1543
Este post recorda através de testemunhos contemporâneos as bibliotecas de Lisboa perdidas nesse catastrófico momento, não esquecendo os arquivos, que tiveram a mesma sorte. Joaquim José Moreira de Mendonça ao escrever sobre a causa dos terramotos, sendo-lhe cara a lição dos livros para a sua investigação recorda as perdas bibliográficas de 1755:
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«[...] Entre as muitas preciosidades, que consumiu o fogo foi muy sensivel aos Eruditos a perda de muitas, e numerosas Livrarias. Tem primeiro lugar a Bibliotheca real, que era numerosissima, e selecta. O Senhor Rey D. João V o Maximo, a tinha aumentado com grande numero de livros modernos, e todos os antigos, que se descobrirão pela Europa; e huma grande copia de bons manuscriptos, assim originaes, como copias bem escriptas, tudo effeitos da sua sabedoria, e magnificencia.
A do Marquez de Louriçal enchia, e ornava quatro grandes casas, e era selecta em livros raros, e excellentes manuscriptos. Tinha sido formada pelos Sabios Condes da Ericeira, e ultimamente aumentada, pelo Conde D. Francisco Xavier de Menezes, cuja sabedoria, e vastissima erudição, ainda depois de morto admira Portugal, e toda a Europa. A Bibliotheca do Convento de S. Domingos estava em duas grandes casas, e tinha muitos livros raros, e grande numero de manuscriptos, que para ella deixou o Eruditissimo Beneficiado Francisco Leitão Ferreira. Foi obra do Padre Fr. Manoel Guilherme, que a constituiu publica, com assistencia de dous Bibliothecarios, e renda grande para o seu aumento. No Convento do Espirito Santo havia huma grande, e selecta Livraria, e outra chamada Mariana, em que se admirava a mayor Colleção de livros, que tratassem de Maria Santissima, obra do Padre Domingos Pereira. Ficárão tambem reduzidas a cinzas as excellentes, e antigas Livrarias dos Conventos do Carmo, S. Francisco, Trindade, e Boahora. Tiverão o mesmo successo, todas as dos Palacios, que arderão, em que havia algumas muito estimaveis.
As particulares forão muitas, e entre estas era muito preciosa a do Inquisidor Simão Joseph Silveiro Lobo, por numerosa, e selecta. Em cinco casas de Mercadores de livros Francezes, Hespanhoes, e Italianos, e 25 loges, e casas de Livreiros Portugueses, se consumirão grandes Livrarias, de que se podião formar muitas copiosas, e excellentes. […] No Convento de N. Senhora da Graça, dos Eremitas do mesmo Santo, [Santo Agostinho] cahiu a sua grande Igreja, e rica Sancristia, a casa do Noviciado, e a formosissima casa da sua numerosa Bibliotheca, cujos livros tiverão muito estrago [...] » [1].
Lisbonne Abysmée. Gravura da época retratando o terramoto de 1755. Fonte URL: http://dossiers.publico.pt/dossier.asp?idCanal=1543
Joaquim José Moreira de Mendonça refere mesmo que a falta de bibliotecas atrasou a sua investigação, tendo-a concluído graças ao recurso à biblioteca da Congregação do Oratório no Palácio das Necessidades, uma das poucas que sobreviveu ao terramoto e às reminiscências documentais da biblioteca do Convento da Graça:
«Esta falta de tempo, o emprehender dar huma completa noticia dos effeitos do ultimo Terremoto (que não sei se já se findárão) e a inopia de livros, que tive no primeito anno, retardárão esta obra mais do que havia projectado. Ainda não poderia estar acabada, se desde o fim do anno de 1756 não tivesse a lição de muitos livros da numerosa, e selecta Bibliotheca da Real Casa de N. Senhora das Necessidades, aonde se admira a magnificencia do Senhor Rey D. João V sempre de gloriosa memoria. A’ urbanidade, e amor das letras dos Eruditissimos Congregados daquella Casa, devo a lição naquella grande Bibliotheca, que não está ainda colocada na formosissima Casa, que para ella se destina. Igual favor confesso dever aos Doutissimos Eremitas de Santo Agostinho, que logo que arrumárão a sua excellente livraria do Convento de N. Senhora da Graça, me admittírão nella, ainda antes de a franquearem ao publico, continuando o beneficio do seu uso, que nella introduziu o Padre Mestre Fr. Francisco de Santa Maria, hum dos grandes, e estimaveis Filhos de Santo Agostinho. A minha pequena Bibliotheca, não podia supprir as noticias, que alcancei naquelles dous Thesouros de bons livros.» [2] Um outro testemunho, este anónimo, identifica igualmente as principais bibliotecas e livrarias lisboetas destruídas pelo terramoto e o incêndio acompanhante: «[…] Certa pessoa, a quem devo [?] dar credito, por ser das de/ mayor entrada no Paço, e por cujas mãos passavão grossas/ quantidades de joyas, e dinheiro, affirmou, que em hu[m] e outro infortunio/ de fogo, e terremoto perdera o Rey dosentos e seten-/ ta milhoens!/ Ignora-se se meteria nesta conta a famosa Biblioteca Real composta de 30 mil volumes, alem dos manus-/ critos políticos de Ministros, q tinhão servido nas maiores cortes da Europa, com os originaes de quasi todos os S.tos/ Padres transcriptos por muitos amanuenses, q para este/ effeito sustentou a expensas suas na livraria do Vatica [sic]/ o grande Rey D. João 5º p.ª cujo extracto tinha concedido faculdade o Summo Pontífice Clemente 12º.
Assim mesmo acabarão as inextima-/ veis livrarias dos conventos de S. Domingos e S. Fran[cis]co/ do Duque de Lafoens, do Duque do Cadaval, do Conde de/ Vimieiro, as dos Desembargadores João Alvares da Costa/ Alexandre Ferreira, Monsenhor Pegado, as dos Doutores Francisco Xavier da Silva e José Caldeira; as dos con-/ tratadores de livros, Mons. Reiscend Mons. Faure, Miguel/ Rodrigues, Manuel Carvalho; e outras muitas de menos/ nome; porq[ue] tão bem as livrarias estavão em moda, e sem este a/ pendiculo [?] não se julgava bem ornada qualquer casa, ainda/ q fosse medianna! Junta com as mayores acabou a da casa/ da Ericeira, hoje Marqueses do Louriçal!» [3]
Estes testemunhos (e mais haverão com certeza) dão-nos apenas uma pequena noção do fabuloso património documental perdido: códices medievais únicos ou rarissímos, incunábulos, cimélios, manuscritos sobre as mais diversas matérias, etc... Praticamente nada restou, as bibliotecas de Lisboa tiveram de recomeçar os seus fundos bibliográficos do nada.
Notas:
[1] MENDONÇA, Joachim Joseph Moreira de – Historia Universal dos Terremotos, que tem havido no Mundo, de que ha noticia, desde a sua creaçaõ até o seculo presente. Com huma narraçam individual do Terremoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, América, aonde se estendeu: e huma dissertaçaõ phisica sobre as causas geraes dos Terremotos, seus effeitos, differenças, e Prognosticos; e as particulares do ultimo. Lisboa: na Offic. de Antonio Vicente da Silva, 1758, p. 129 - 131.
[2] Ibid., p. 3.
[3] Relação do horrível e espantozo terremoto que padeceu o Reino de Portugal com especialidade a corte de Lisboa sua Metrópole em 1º de 9bro do anno de 1755 escrita por hum curiozo, para memoria das Idades Futuras, manuscrito. de 1756 incluído no tomo 2 da colectânea de textos sobre o terramoto entitulado Biblioteca Volante ou colleção de relações dos lamentáveis effeitos que fez o Terremoto do 1º de Novembro de 1755, compilados e reunidos por Fr. Matias da Conceição em 1756, fol. 9, fol. 9v.



