Elogio (irónico?) a Junot

Encontra-se no Arquivo Histórico Militar um documento composto por três fólios manuscritos, (cota AHM/DIV/1/14/006/32), onde se faz o elogio e a defesa do governo de Junot, comandante do exército francês da 1.ª Invasão francesa a Portugal (1807 -08). O documento é uma cópia do original, sendo a autoria desconhecida, embora a última palavra do manuscrito seja Valle. Será o nome do autor? Pelo conteúdo do texto é provável que date do periodo dos levantamentos populares organizados pelas sucessivas juntas formadas ao longo do país a partir de Junho de 1808 e antes do fim do governo de Junot com a Convenção de Sintra em Agosto do mesmo ano. Neste post publica-se a sua transcrição na íntegra e sem qualquer alteração à ortografia original.

Jean Andoche Junot (1771 -1813) num retrato da Biblioteca Nacional de Portugal

«Copia de hua Carta escripta a M[onsieu]r. Junot por / hum seu ami[g]º.
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Como he voluvel a Roda da fortuna que n’hum momento / corta a fio da mais solida ventura! Nunca imaginei que vos havia / de chegar a Santa – unção primeiro que a Quintella [?]. Que des/consolação para os vossos amigos, e para a vossa M[ademoisell]e Ega, ver-/vos espirar depois d’hum Ducado tão glorioso no Mundo / como o Reinado de vosso amo! Vos tinheis os fundamentos lançado de / hua fama tão assignalada como a d’aquelle Heroe que en/cendiou em Efezo o Templo de Diana, e em tudo, e por tu -/do se vião reproduzidas em vos as virtudes deste: Porem / q[uan]to pode a Ingratidão dos Portuguezes tomando as armas / contra vos! Como depressa se esquecerão da Protecção que / troussesteis ao seu Paiz, fazendo delle hua Conquista de / amigo, abrindo Estradas, rompendo Canais, e pondo a / coberto o seu ouro, e prata da influencia maligna d’In-/glaterra; ah meu amigo quanto sinto ver vos á borda do / percepicio, vereficando-se em vos o Vifão antigo = Entradas / de Leão e sahidas de sendeiro = Quem me dera hua voz tão robus-/ ta que ressoasse nos montes e valles, ou tão irada cômo o / som da artilharia: eu bradaria então = Portuguezes, que / mal vos fez o vosso protector, para assim o acometerdes com / ferro e fogo? Não he à illuminada Politica deste general / que o Pobre Tejo deve o incomparavel beneficio de se ver desa-/frontado d’aquelles Exércitos de vasos, que fazião gemer as su-/as agoas com o enorme peso dos trigos, quejos, manteigas, ar/roses, assucares, farinhas de Pão, algodoens, Panos, dro-/gas e outras redicularias deste genero? Não he à grande / [fol. 2] protecção deste virtuoso chefe que a famosa Lisboa deve o / ver-se evacuada d’Inglezes, americanos, gregos, Marroquinos, / Hollandezes, e de outros Pobretoens deste género, que nunca / souberão commerciar como Mr. Lunist [?], nem possuirão a gran/de arte de felicitar os Povos como Napoleão; e não he por elle que / se vio estinta na vossa Capital a grande praga da traça / ficando tudo aliviado do pezo das Lans, e remediada a / sordida Indigencia? Não he nas suas mãos que se vio reunido / como em hum so ponto todo o vosso Comercio [?]; as artes em hum / vigor tão prodigioso, que não fatigavão ja os membros dos / operários; as sciencias em tanto que brevem[en]te vos da-/rião hum novo Camoens; a Religião tão despida das supers/ticçoens que a desonrão que sem demora seria o vosso cate-/cismo o Filosofo militar, o Emilio, e outros illuminados / Apóstolos que não teve a Igreja nos seus fundamentos, / e em concluzão hua Policia tambem ordenada que / tudo era hua Limpeza decedida e ellevada ao seu cu-/me. E he contra hum politico desta ordem que / vos tomais as armas? assim insultais o Omnipotente / que o enviou a protegervos, e que decidio a vossa sorte d’hum / modo tão glorioso e honrado? assim se recompensão as aç-/coens grandes que elle obrou entre vos, e aquella piedoza pro-/tecção que enviou aos Cidadãos das Caldas, pelo Ministério / d’hum general tão grande na virtude como mesquinho / nos membros. Amigo Junot, assim falaria eu por / vos, porem a Natureza que me não fez gigante golias, / nem me deu a lyra d’Orpheo. Eu ouço já o estrondo / [fol 3] das armas portuguezas que marchão em vosso alcance / e se o vento vos deixa ainda articular alguns sons, pedi / a Vossa amante, ou que tome as armas da sua caza p[ar]a / vingar como Heroína, o insulto que se derige a Vossa Pes-/soa, ou que diga hum eterno A Deos aos / arbustos do Ramalhão, com que coroaste os seus / mimosos sorrisos.
Valle»

1 comentário:

Rotiv disse...

Olá :)
O Blogue dos Manteigas de visita ;)
Um sorriso
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