A oposição ao plano de defesa de Wellington

Apesar da vitória na batalha de Talavera (27-28 de Julho de 1809) Wellington entendeu que o avanço do exército anglo-luso até Madrid era arriscado devido às discrepâncias com o exército espanhol quanto à adopção de uma estratégia comum e à ameaçadora proximidade do exército francês da fronteira portuguesa. Além disso, a diplomacia francesa obtinha mais uma relevante vantagem para Napoleão com repercussões na Península Ibérica. O tratado de paz entre o império francês e o império austríaco (14 de Outubro de 1809) possibilitava a Napoleão a formação de um grande exército de conquista de Portugal. Com a situação militar controlada em Espanha a terceira invasão seria apenas uma questão de tempo.
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Neste contexto político-militar Wellington define um plano de defesa de Portugal. O plano visava preservar o exército, evitando os confrontos directos com o inimigo, de resultados imprevisíveis. Objectivando também a defesa de Lisboa, o plano prevê a invasão das Beiras e Estremadura, retirando destas os meios de subsistência ao invasor como parte da táctica da terra queimada e constrói as linhas de defesa de Torres Vedras. As linhas de Torres Vedras articulavam-se com o primeiro objectivo ao servirem de protecção a uma eventual retirada do exército inglês por mar.
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O plano de defesa de Portugal foi apresentado em Fevereiro de 1810 aos governadores do reino. Estes concordaram com a sua execução, aparentemente sem qualquer reserva. Contudo, a 9 de Agosto de 1810, verificou-se uma alteração no elenco governativo, com a nomeação de D. José António de Meneses e Sousa Coutinho, (principal Sousa) para o governo. Na opinião do principal Sousa, a defesa de Portugal devia fazer-se em território espanhol, por meio de batalha forte e dura ao invasor para impedir a sua entrada em solo português. Estava persuadido que permitir ao exército francês percorrer o país até às linhas de Torres Vedras era condenar a economia agrária e as populações. Obrigar as populações a abandonar casas e propriedades seria não só desmoralizante como lesivo para as finanças do reino, e consequentemente para o exército pela falta de dinheiro e de homens. Pensamento incompatível com o plano de defesa de Wellington que previa a evacuação da população em grande escala e a destruição de culturas e colheitas para retirar abastecimentos ao exército napoleónico.
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Outro ponto discordante dizia respeito aos objectivos militares. Enquanto que Wellington tinha por objectivo primordial a defesa de Lisboa e a retirada em segurança do exército inglês em caso de retirada, o principal Sousa pretendia a defesa da integralidade do território português através de acções militares em Espanha. Criticava as premissas militares de Wellington interrogando-se retoricamente: «Há de a fuga ser o meio de resistir ao inimigo? Há de ser a ruína das propriedades o meio de defender o reino? Há de Lisboa só considerar-se o ponto a defender em Portugal, e gostosamente hão de os povos danificar as suas fortunas para defesa desta cidade?»[1].
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Queixa-se Wellington a 30 de Novembro de 1810 ao príncipe regente D. João que além dos governadores do reino não terem competências políticas nos planos e operações militares, pois só ele era responsável perante o rei português e inglês pela condução do exército anglo - luso, foram, sobretudo devido à oposição do principal Sousa, demorados em tomar as medidas necessárias para dificultar o avanço do invasor e implementar a táctica da terra queimada. Como consequência desta demora, escreve Wellington, «o inimigo há achado na Estremadura todas as coisas que não somente podiam cooperar para o seu conforto, mas até mesmo para a sua subsistência e para os habilitar a manter a sua posição em Portugal»[2].
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O general inglês responsabilizava o principal Sousa pela sorte dos acontecimentos e pedia ao príncipe regente os devidos resultados políticos da sua acção: «Há sido pois a consequência da oposição ocasionada pelo principal Sousa contra as indicadas medidas que elas hão ficado improcedentes, e parte dos territórios de Vossa Alteza Real assim como do seu povo, estão agora suportando vexames e muitos pesados sofrimentos. A influência do principal Sousa se há em uma tal instância manifestado perniciosa e por isto deixo às sábias determinações de Vossa Alteza Real o decidir se acaso será conveniente que esta personagem continue um dos membros do governo» [3].
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Não conseguindo o seu intento, Wellington, em carta de 20 de Outubro de 1811 aos governadores do reino, dispõe-se a «que tudo o que se tem passado sobre assumptos desagradáveis, seja para sempre esquecido; podendo eu com segurança afirmar que não tinha inimisade pessoal contra qualquer das pessoas de quem pensei que tinha rasão para me queichar […]»[4]. O principal Sousa permanece no governo até à sua morte em 1817.
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Fontes:
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[1] Arquivo Histórico Militar (AHM)-DIV-1-14-002-34
[2] AHM-DIV-1-14-010-53
[3] AHM-DIV-1-14-010-53
[4] AHM/DIV/1/14/002/33
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ps: as fontes estão acessíveis para leitura no site infogestnet

5 comentários:

mpr disse...

desconhecia a oposição de Sousa Coutinho a este plano.

obrigado pelas referências :)

amg disse...

olá e parabéns pelo seu blog.

Sabe-me dizer se é verdade que o túmulo de D. Afonso Henriques foi profanado durante o avanço para Sul (após a batalha do Buçaco) na 3ª invasão francesa? Ao que parece este episódio vem relato num documento interno de uma unidade militar inglesa.

Rui Manuel C. Prudêncio disse...

Olá

Não lhe sei responder directamente à sua questão. O que sei dizer é que muitos túmulos em igrejas e conventos foram profanados pelos soldados franceses na espectativa de ali estarem guardados jóias ou outros objectos valiosos. Por ex. o túmulo do rei D. Fernando I, depositado na igreja do convento de S. Francisco em Santarém foi arrombado e os restos mortais do monarca desapareceram até hoje. Quanto ao túmulo de D. Afonso Henriques não sei o que aconteceu, mas tendo em conta este padrão de comportamento é possível que tenha sido saqueado.

Deve de existir alguma informação sobre o assunto em monografia de História Local.

Um grande bem haja

amg disse...

obrigado pela resposta.

o «bem-haja» é para si e para o seu trabalho.

amg

ps: já agora, a ponte sobre o rio Misarela, por onde Soult fugiu, tem uma webcam na net; não consegui dar com o site, mas deixo-lhe «isto»:
http://www.archive.org/details/ViagemDosGenerais

(nos EUA, quem diria, heim?)

Stella disse...

Olá, Manuel, o blog Dominus em parceria com a Loja do Altivo estará sorteando o livro O Último Trem Para Istambul de Ayse Kulin. Participe!
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