Os livreiros franceses em Portugal

Durante a primeira metade do século XVIII verifica-se a vinda de livreiros do exterior para as principais cidades portuguesas. Num mercado pequeno e estagnado facilmente surgem as rivalidades com os livreiros portugueses (vide o post anterior Algumas características do meio livreiro português no século XVIII). Quem eram afinal os livreiros estrangeiros, alvo do queixume dos livreiros portugueses? Eram na sua maioria franceses da região de Briançon, nos Alpes franceses, mais concretamente da vila de Monestier que emigraram para o sul da Europa no primeiro quartel de setecentos. A notícia mais antiga sobre a presença de um livreiro desta região em Lisboa é de 1727 através de um anúncio na Gazeta de Lisboa. Tratava-se de Pedro Faure, vendedor de estampas mais tarde associado aos irmãos Bertrand (DOMINGUES, 1991, p. 112 -114). A partir da década de 30 surgem com mais frequência nomes de livreiros franceses, a maioria da mesma região e com grandes afinidades familiares entre si. Do levantamento feito por Ângela Gama e por F. Gama Caeiro, identificaram-se 13 livreiros da região de Briançon num universo de 17 livreiros franceses. Fernando Guedes refere 20 livreiros de Briançon instalados em Lisboa (GUEDES, 1998, p. 70). Havia ainda um pequeno número de livreiros italianos. Na carta redigida em 1754 o livreiro suíço Grasset qualifica a comunidade de livreiros franceses briaçonnais como «[...] activa, trabalhadora e extremamente sóbria, passa sucessivamente por Espanha e aliam-se quasi sempre entre eles» (CAEIRO, 1980, p. 151). A expressão “ aliam-se quasi sempre entre eles” denuncia o carácter socialmente homogéneo, fechado e intra familiar dos livreiros franceses setecentistas. As famílias Borel, Martin, Bertrand, Aillaud, Rey, Orcel, Dubeux, Semion, Rolland, Bonnardel, Du Beux, Ginioux e Guibert variadas vezes casavam-se entre si e formavam sociedades comerciais. Além de Lisboa, onde residia a maioria, a comunidade distribuia-se também por Coimbra e Porto. Mas como se explica que livreiros vindo do exterior tenham tão rapidamente dominado o mercado português? Eram oriundos de uma região próxima de grandes centros de produção editorial, como Lyon, Genéve, Lausanne ou Neuchâtel. Ao emigraram para as cidades do sul da europa levaram consigo os contactos comerciais dos grandes fornecedores europeus, contactos difíceis de obter para um livreiro português. O conhecimento por dentro do meio editorial internacional, principalmente suíço e francês (francófono), o domínio da língua e a posse de capital são factores decisivos para o sucesso desta comunidade no meio livreiro sul europeu, como testemunhou Grasset.

Francisco Rolland, um dos maiores livreiros franceses instalados em Portugal. GUEDES, Fernando – O livro e a leitura em Portugal: subsídios para a sua História (séculos XVIII e XIX). Lisboa: Verbo, 1987
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A dimensão do negócio
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Pela correspondência do fornecedor suíço Gosse enviada ao livreiro lionês Jean Marie Bruyset, fica-se com a noção das quantidades de livros envolvidas nas transações com os livreiros franceses em Portugal. De acordo com uma carta de 1760, o livreiro M. Gendron, com loja em Lisboa distinguia-se de outros clientes do fornecedor suíço pelas grandes quantidades de livros encomendadas: 10 000 a 15 000 livros enviados de Genéve para Lisboa (BONNANT, 1960, p. 196). Os catálogos dos livreiros são também passíveis de análise para se obter uma maior percepção da dimensão do negócio em Portugal. O primeiro catálogo conhecido foi publicado pelo livreiro José Reycend e é de 1741. Nele estão catalogadas cerca de 1000 obras latinas e mais algumas em português, castelhano e italiano. Abrangem áreas como a Teologia, Filosofia, Jurisprudência, Medicina e Cirurgia. O mesmo livreiro em sociedade com Gendron, publica um catálogo em 1747 com cerca de 3 500 títulos. São números substanciais. Não é portanto de estranhar que o rei D. João V tenha solicitado a esta sociedade, Reycend & Gendron que lhes fornecesse as bibliotecas dos palácios de Mafra e Necessidades (DOMINGUES, 1989, p. 86). Entre 1777 e 1797 conhecem-se 11 catálogos com quantidades bem mais modestas (à excepção do catálogo da Imprensa Régia de 1777 que incluía 3611 títulos embora alguns duplicados). Esta alteração deve-se à maior frequência de edição dos catálogos, fazendo com que o tempo de publicação entre catálogos torna-se progressivamente menor, logo tendo menos obras para actualizar. O ritmo de edição de catálogos demonstra o aumento da oferta bibliográfica dos negociantes franceses. Para o livreiro Reycend existem os catálogos de 1741, 1747, 1779, 1792 com respectivamente 1000, 3500, 962, e 194 títulos. Para os livreiros Bertrand existem os catálogos de 1787, 1789, 1791 (GUEDES, 1987, p. 84 - 85). A probabilidade de terem existido mais catálogo é grande e até é sugerida pelas datas dos actualmente conhecidos, pois não se compreende como casas com transações bibliográficas tão volumosas ficassem décadas sem publicar nenhum catálogo. Os anúncios de venda de livros na Gazeta de Lisboa servem também para medir o pulso ao negócio. Quase todos os livreiros franceses anunciavam o seu produto na Gazeta de Lisboa. De 1715 até 1726 o número de anúncios oscila entre as duas e as quatro dezenas por ano. A partir de 1727 verifica-se um constante crescimento até atingir o pico em 1737 com 162 anúncios. Seguidamente dá-se uma forte quebra entre 1738 e 1741 sem no entanto baixar a fasquia dos 84 anúncios. Após este ano, os anúncios voltam a aumentar atingindo um novo pico em 1745 com perto de 160 anúncios. A partir daqui até 1751 os números vão oscilando, nunca inferiores os 93 anúncios. De 1751 até 1760 baixam os anúncios, mantendo-se na média de 50 por ano. Este decréscimo pode estar correlacionado com o aumento dos catálogos dos livreiros, que eventualmente podiam remeter os anúncios para uma acção publicitária secundária (BELO, 2001, p. 72 - 74). Só mais um elemento indiciador da grande dimensão do negócio do livro neste período. Quando João José Bertrand morre em 1778, o recheio da sua livraria é avaliada em 20 000 réis (GUEDES, 1987, p. 77). Uma pequena fortuna na altura.
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Circuitos comerciais, produtos, preços e pagamentos
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Os livreiros franceses abasteciam-se nos grandes centros editoriais da Europa, um dos factores do seu sucesso comercial. Pelo estudo de Georges Bonnant identifica-se na Suíça três grandes centros abastecedores: Genéve, Lausanne e Neuchâtel, todos situados na Suiça francófona. Em Genéve os principais fornecedores dos livreiros residentes em Portugal eram os Tournes (com uma sucursal em Lyon), os Cramer (os editores das obras de Voltaire) e os Gosse. Na cidade de Lausanne, Marc Michel Bousquet e François Grasset forneceram as livrarias lisboetas entre 1736 e 1789. Em Neuchâtel a conhecida casa Société Typografique de Neuchâtel era a maior fornecedora de livros para Portugal (BONNANT, 1960, 195). Mas os livreiros franceses não se abasteciam só na Suíça, indo também a Paris, Avinhão, Lião e até a Leipzig, famosa pela sua feira. As encomendas podiam vir por via marítima ou por via terrestre. Por exemplo, o fornecedor genevesiano Gosse enviava as suas cargas por via marítima, através do porto de Havre, a Société Typografique de Neuchâtel expedia pelo porto de Marselha. Tanto Lisboa como Cádiz (onde também estavam implantados livreiros briançonnais) constituíam-se em plataformas de distribuição para os respectivos mercados metropolitanos e coloniais com especial relevo para mercado brasileiro no caso português. Chegadas a Lisboa muitas cargas eram reexpedidas para o Rio de Janeiro, S. Salvador da Baía ou Goa e para os maiores centros urbanos do país. Processava-se à descentralização da distribuição pelo tecido urbano português, tendo cidades como Coimbra (onde tinham loja aberta os livreiros Orcel, Aillaud e Ginioux), Porto, Évora, Braga, Guimarães e até Elvas acesso ao que de melhor se editava na Europa, desde que não suscitasse a censura das autoridades. É interessante analisar um catálogo dos livreiros Rolland, enviado no ano de 1792 para a feira de S. João em Évora. O catálogo englobava 683 títulos que abrangia temáticas como a teologia, literatura, matemática, direito, agronomia, botânica, história, farmacologia e medicina (ALVES, 2000, p. 11 - 12). Mas não só de livros vivia o livreiro do século XVIII. Reycend tinha também à venda as assinaturas e os números avulso das gazetas de Utrecht, Amesterdão, Colónia, Paris e Madrid. Os irmãos Rolland comercializavam cartas, mapas, calendários, estampas, reexportavam vários tipos de papel, a lotaria, bilhetes de visita.
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Apesar do preço dos produtos das artes mecânicas estarem tabelados pelas autoridades (Desembargo do Paço, o Senado da Câmara de Lisboa, a Casa dos Vinte e Quatro ou a Corporação do Livreiros) nunca foi emitida lei ou norma que fixasse o preço dos livros em concreto. Fernando Guedes afirma que a taxa existia mas era aplicada em cada livro específico, caso acaso. Afirma ainda que nem todos os livros estavam sujeitos à taxa. Provavelmente só eram tabeladas as obras privilegiadas para prevenir abusos do agente privilegiado. A situação muda no século XVII e XVIII. Os livros taxados são mais numerosos, mesmo os não privilegiados (GUEDES, 1993, p. 79). Infelizmente desconhece-se o valor das taxas. Temos conhecimento pelo catálogo da Impressão Régia de 1777 que as obras in octavo escritas em francês podiam oscilar os 250 a 960 réis, as em latim entre 120 e 840 réis e as de língua portuguesa podiam ir de 100 a 600 réis. O pagamento nem sempre era efectuado em dinheiro podendo ser efectuado em géneros (frequente no casos de clientes da província e das colónias, produtos esses revendidos), declarações de dívida, notas de crédito e permutas de livros.
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Bibliografia:
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ALVES, José Augusto dos Santos (2000) – Os livreiros Rolland na feira de S. João em Évora: um rol de 1792 in Revista Portuguesa de História do Livro e da Edição. Lisboa: Távola Redonda, A. 3, n. 7, p. 11-12
BELO, André (2001) - As gazetas e os livros: a gazeta de Lisboa e a vulgarização do impresso (1715-1760). Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, p. 72-74
BONNANT, Georges (1960) – Les libraires du Portugal ao XVIII siècle vus à travers de leurs relations d` affaires avec leurs fournisseurs de Genève, Lausanne et Neuchâtel. Arquivo de Bibliografia Portuguesa. Lisboa, n.º 23-24, p. 195, 196.
CAEIRO, F. Gama (1980) - Livros e livreiros franceses em Lisboa nos fins de setecentos e no 1º quartel do século XIX. Coimbra: Boletim Bibliográfico de Coimbra, p. 151
DOMINGOS, Manuela (1989) – Os catálogos de livreiros como fontes de História do Livro: o caso dos Reycend in Revista da Biblioteca Nacional. Lisboa: B.N., S. 2, vol. 4, n. 1, p. 86.
Idem (1991) - Colporteurs ou livreiros? Acerca do comércio livreiro em Lisboa 1727-1754 in Revista da Biblioteca Nacional. Lisboa: B.N., S. 2, vol. 6, nº 1, p. 112-114.
GUEDES, Fernando (1987) – O livro e a leitura em Portugal: subsídios para a sua leitura (séculos XVIII e XIX). Lisboa: Verbo, p. 77, 84- 85.
Idem (1993) – Os livreiros em Portugal e as suas associações desde do século XV até aos nossos dias. Lisboa: Verbo, p. 79.
Idem (1998) – Os livreiros franceses em Portugal no século XVIII: tentativa de compreensão de um fenómeno migratório e mais alguma história. Lisboa: Academia Portuguesa de História, p. 70.

6 comentários:

Rui Prudêncio disse...

Este post bem como os três imediatamente anteriores (Algumas caraterísticas do meio livreiro português no século XVIII; Os livreiros no século XVI a XVIII: notas para a sua história(partes I e II)) constituem a publicação de um trabalho académico no âmbito da cadeira da História do Livro do Curso de Ciências Documentais da Universidade Autónoma de Lisboa no ano lectivo 2002/03

maria augusta disse...

parabéns!

Anónimo disse...

Caro Rui
Sendo apaixonado da história (e doutorando na área), e especialmente interessado na história do livro, gostei muito do seu blog. Farei dele leitura regular.
Abraço,
Paulo Lopes
(acontecencias.blogspot.com)

Rui Prudêncio disse...

Caro Paulo Lopes

Apraz-me saber que gostou do Blogue de História e Estórias. Não sendo um blogue especializado em temáticas específicas, pretende dedicar alguma atenção a determinados temas, sendo a História do Livro e particularmente a História das Bibliotecas um dos temas a tratar com mais frequência. Pelo menos é o que eu espero. Depende da quantidade de informação recolhida, mais ou menos inédita e interessante ao tema. Assim espero que futuramente possa encontrar mais informação do seu agrado.

Um abraço

Rui Prudêncio

sara disse...

Boa tarde.

Estou na Licenciatura Ciência da Informação Arquivistica e Biblioteconómica e agora vou fazer um trabalho sobre Catálogos de Livreiros em Portugal, seria possível recomendar-me alguma bibliografia interessante para este tema?

deixo o meu mail caso tenha a amabilidade de poder responder

sarapit@gmail.com

Ligia Cristina disse...

Oi! Que legal! Gostei do seu blog! Faço história também! Aproveito para perguntar se vc sabe em Portugal onde tem arquivos de periódicos do século XIX. Eu sou brasileira e tenho interesse em pesquisar escritoras. Aproveito também pra indicar meu blog que ainda está no comecinho mas pretendo colocar assuntos sobre história. http://caosacademico.blogspot.com.br/
meu e-mail se puder responder sobre os arquivos: ligiacristina.m@gmail.com