Biblioteca de Jardim

A revista Ilustração Portugueza, no n.º 718 (24 de Nov. de 1919), noticiava a inauguração de uma pequena biblioteca pública no Parque del Retiro em Madrid. Esta biblioteca não era mais do que uma grande estante de livros em pleno jardim para usufruto dos transeuntes. Além de divulgar a notícia, a revista, no artigo entitulado Como o povo aprende a amar a sua terra e os seus escritores, fez a apologia da abertura de bibliotecas idênticas nos maiores jardins públicos de Lisboa, tal como acontecera em Madrid, afirmando que «A Camara Municipal faria, pois tres estantes destinadas aos nossos tres jardins fechados: o de S. Pedro de Alcantara, o da Escola Politécnica e o da Estrela.» [p. 405] acrescentando que «Esta ideia é além disso tudo quanto ha de mais realisavel. Tem a Camara operarios que, em logar de madraçarem, se podem ir entretendo a construir as pequenas estantes. [...] Uma estante com duzentos volumes satizfaz plenamente a gula ledora do publico alfacinha, ao mesmo tempo que dá a impressão de que isto é terra civilisada.» [p. 408].
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A biblioteca do Parque del Retiro em Madrid, inaugurada em 1919, e que inspirou a revista Ilustração Portugueza a sugerir uma do mesmo tipo nos jardins de S. Pedro de Alcantara, da Escola Politécnica (Jardim Botânico) e da Estrela. fonte: Illustração Portugueza, n.º 718 (24 Nov. 1919), p. 405
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Que fundo documental comporia este tipo de bibliotecas? Seriam bibliotecas de cariz popular, com a finalidade de disponibilizar, sobretudo aos mais carenciados económicamente, os grandes vultos da literatura portuguesa. Assim, e na opinião da Ilustração Portugueza, deviam estar nestas bibliotecas, autores exclusivamente portugueses, deixando de fora autores estrangeiros, mesmo que traduzidos. Eram os tempos do nacionalismo literário. Segundo a revista «Nada de livros prenhes de idéas, nada de livros complicados. Nada de livros pretensiosamente educadores, nada de politicas.» [pág. 406]. Sugeria antes «livros maravilhosos de comoção e portuguezissimos? Pois não temos os Fidalgos da Casa Mourisca, a A Morgadinha dos Canaviaes, as Pupilas do sr. Reitor e Uma familia Ingleza, só de um autor? Não temos esses encorajantes livros de Mota Prego, a Horta do Tomé, a Lagoa do Donim, a Leitaria da Rosalina, os Netos do Nicolau, o Padre Roque, o Pomar do Adrião e a Quinta do Diabo? Ora não serão esses livros proprios para creanças e adultos e não se fica sabendo, depois de os ler, alguma coisa de piscicultura, apicultura, pomocultura etc.? Então não temos esse bronzeo Herculano falando-nos dos tempos idos, com a grandeza épica de um estilo que parece cinzelado na pedra imortal dos monumentos e no oiro mates das obras de Arte? As Lendas e narrativas, e O Bobo não são que baste uma alma de nobreza e de respeitopor esses mesmos livros e pela sua terra? Fialho d'Almeida daria os seus Contos e A Cidade do Vicio, D. Virginia de Castro e Almeida os seus romançes Terra bendita, Trabalho bendito e Capital bendito, Beldemonio A Musa Toira, Camilo os seus melhores livros. Que com Camilo a dificuldade seria da escolha, mas ha uma edição popular com sus estante e tudo e só aí são 80 volumes. Garrett teria lá as Viagens da minha terra e o Frei Luiz. Castilho um ou dois volumes. Um ou dois volumes d'esse faceto erudito que foi Manuel Bernardes Branco, os cinco volumes da Nova Floresta para os meditativos, os Sonetos de Amor de Camões para os amorosos, além, é claro, dos Lusiadas. Os Contos do D. João da Camara, duas ou tres peças do Marcelino, o Livro de Cezario Verde, estrofes tonitroantres de Junqueiro, entusiasmos artisticos de Gomes Leal.
Santo Deus! Que coisa bonita que isto das bibliotecas dos jardins poderia ser!» [p. 406, 407].
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Modelo da biblioteca dos jardins de Lisboa proposto pela Illustração Portugueza, muito semelhante ao modelo das bibliotecas de jardim de Madrid. fonte: Ilustração Portugueza, n.º 718 (24 Nov. 1919), p. 407
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Os livros seriam carimbados, e a segurança da biblioteca ficaria à responsabilidade dos próprios leitores, não deixando a revista de aventar a possibilidade de quer ladrões, quer alfarrabistas receptores dos livros carimbados estarem sujeitos a uma pena de 15 dias de prisão [p. 405]. Esta ideia de biblioteca de jardim, tanto quanto sei, nunca chegou a ser implementada em Lisboa, nem noutra cidade portuguesa. No entanto, a Câmara Municipal de Lisboa têm actualmente a Biblioteca Quiosque do Jardim da Estrela, acessível de Segunda Feira a Sábado durante o dia, com mais de 1000 monografias e bastantes publicações periódicas, que se aproxima muito deste conceito de biblioteca de jardim propagandeado pela Ilustração Portugueza.
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Bibliografia:
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Como o povo aprende a amar a sua terra e os seus escritores in Ilustração Portugueza, S. II, n.º 718 (24 Nov. 1919)

2 comentários:

Susana Carinhas disse...

Ora muito bem!! Que artigo muito mas muito interessante, que alia a história e as bibliotecas!
Muitos parabéns!!:D
Parabéns pelo blogue!
Caro colega Rui(do chazinho de tília), espero que tudo continue a correr bem para contigo!

Uma colega do curso de História

Susana Carinhas

Rui Manuel C. Prudêncio disse...

Olá Susana

Fico feliz por te "encontrar" ao fim de tanto tempo. Espero que esteja tudo bem contigo.

Agradeço o teu comentário. Como vês o "bichinho" da História não me largou.

Aproveito para te desejar BOAS FESTAS com muita saúde, alegria e amizade.

Vai dando notícias.

Bjs.